ou (título alternativo mais otimista)
A Dama da Noite saiu do Armário
Primeiro foi o filho mais velho que arranjou um rabo-de-saia, amasiou-se e se mudou para Barra Mansa, em seguida foi a filha que foi fazer MBA em Londres sem data para retornar, depois o terceiro filho, um macho tão arretado, apaixonou-se por um garotão da praia e foram surfar na Califórnia, e para completar, o caçula querido teve uma crise mística, acordou dizendo-se ser São Judas Tadeu, resolveu ser missionário embrenhando-se na selva para sempre, e como desgraça vem em van lotada e com fretamento pago antecipado, o marido teve uma diarréia violenta, entre crises de flatulência e desidratado, finou-se.
Dias difíceis aqueles, de repente uma casa tão cheia, uma família tão unida, um destino tão combinado e tudo dissipou-se no ar, o que era encanto se quebrou, e o que sobrou foi, a princípio, apenas desencanto, desespero e uma tenebrosa solidão.
Claro que os planos desta mulher eram outros, estava tudo tão tranqüilo, tão no combinado, tudo tão certinho, para que mudar? No máximo ela esperava uma velhice tranqüila, um tanto sem graça é verdade, mas ao lado de seu “velhinho”, com algumas rabugices o que seria natural, mas um doce envelhecer ao pôr-do-sol, um balançar sossegado na velha cadeira de balanço, um chazinho quente nas noites frias e um terço rezado junto ocasionalmente antes de apagar a luz.
Quanto aos filhos estava tudo tão pensado, o filho mais velho bem casado lhe daria os primeiros netos, a filha seria diretora da escola pública ali do bairro mesmo, o terceiro falava em ser um jogador de futebol do time da cidade e o caçula, ah, o caçula, este seria a companhia dos pais, certamente se casaria com uma boa moça e ficariam morando ali mesmo, num puxadinho no fundo do quintal.
Entretanto veio o pesadelo, e como um vento malvado, tudo levou, e nada sobrou.
De repente ela se deu conta de que a mesa ficou vazia, sobrou apenas um prato e uma dupla de talheres, havia perdido tudo, até a vontade de comer, e com o corpo pesado deixou-se cair na cama à espera da morte chegar. E esperou, esperou, e a morte, aquela traidora, contudo não chegou.
Mas o tempo passa, e se não mata, cura, e foi o que aconteceu.
Um dia acordou transpirando, havia sido uma noite quente, insone e longa, como tantas, e ao invés de tentar suicidar-se mais uma vez, decidiu por uma chuveirada matinal, mas ao passar diante do espelho levou um susto e quase enfartou. Como um raio tomou consciência de que continuava viva, corada e transpirante, e neste estado de coisas, descobriu que sentia desejo, e desejo carnal.
O destino lhe reservara uma armadilha pois se a mortalha para seu cortejo fúnebre já estava passada, dobrada e pronta para uso, um calor diabólico lhe ruborizava as faces, lhe queimava o ventre e lhe incitava à vida, e não seria uma prosaica chuveirada matinal que lhe apaziguaria os tormentos.
E naquele desvario pode compreender que se haviam morrido nela uma mãe generosa e uma esposa submissa, renascia nela uma mulher.
Refeita do susto escovou os dentes, olhou-se com vagar no espelho, contou as rugas que a angústia e o desespero desenharam em seu rosto, conferiu os cabelos brancos que o descuido permitiu, mirou-se toda com calma, permitiu-se reconhecer que continuava bonita, com musculatura firme, curvas bem delineadas e sensuais, movimentos ágeis e graciosos, e perplexa, concluiu ser uma mulher interessante, atraente e gostosa.
Aí então suspirou, foi até à janela, tomou a brisa da manhã entre afagos do sol, e saiu a dançar pelo quarto, pela casa e pelo jardim.
E aquele dia foi um dia de faxina, na casa, no corpo e na alma. Jogou fora as caixas de remédio para azia, enjôos, dores aqui e acolá, insônia, rasgou umas fotografias da família tiradas em Caxambu, queimou cartinhas de amor de um ex-namorado que guardava apesar de seu enlace feliz, jogou no lixo um par de xícaras com uma inscrição “aqui reina a felicidade” que ganhara de presente do finado em excursão à Aparecida do Norte, abriu todas as janelas, encheu a casa de flores e, exausta e feliz, foi tomar banho de espuma perfumada em sua banheira esquecida.
Decidida a tomar a vida nas mãos e faze-la valer a pena trocou seu Gol usado por um Peugeot prata, vendeu aquela casinha financiada pelo BNH que durante tanto tempo fora seu lar-doce-lar, comprou um Loft em endereço descolado e mudou-se para lá. E como o diabo veste Prada foi assim que se vestiu, com salto agulha 10 e uma bolsa Hermés a tiracolo sentiu-se pronta para o próximo passo. Não era mais uma dona de casa, uma mãe generosa e uma esposa submissa, agora era uma nova mulher, e como não pode deixar de ser faltavam um novo trabalho, novos amizades e um novo homem. Por que não?
Em resumo esta é a estória desta mulher renascida, que se antes era apenas bem nascida, agora fez do pesadelo uma mudança de curso, tomou sua vida à pulso, acreditou que as curvas do rio guardam sempre uma surpresa, e que se o destino faz suas estripulias e zomba muitas vezes de todos nós, há muito ainda o que fazer e que nos cabe, depois do tombo, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.
Antes de encerrar este relato preciso contar ao leitor o que tem ocorrido nestes novos tempos com esta mulher admirável. Empregou-se como barista num café chique no Itaim-Bibi, conheceu um bonitão, que apaixonado por ela ficou no ato, um sujeito simpático, inteligente, bem humorado, rico e boa pinta (e ainda por cima bom de pinto, UAU!). E hoje, exatamente hoje, estão em férias num “doce farniente” na costa Amalfitana.
The End.
José Luiz de Carvalho
PSICÓLOGO e PSICANALISTA
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