(uma reflexão sôbre a diferença entre narcisismo e auto-estima)
Hoje, sábado dia 06 de Dezembro de 2008, me posto numa fila de supermercado, numa ação corriqueira do cotidiano de um sábado sem programa melhor. E logo atrás tem um senhor já aposentado, um avô feliz que fala de seus programas com o neto, e no decorrer da conversa fala da APAE para mim, e diz: vocês cresceram tanto!
Hoje, sábado dia 06 de Dezembro de 2008, me posto numa fila de supermercado, numa ação corriqueira do cotidiano de um sábado sem programa melhor. E logo atrás tem um senhor já aposentado, um avô feliz que fala de seus programas com o neto, e no decorrer da conversa fala da APAE para mim, e diz: vocês cresceram tanto!
Saí do supermercado e a frase dele não saiu de minha cabeça, apeou e tomou lugar, sem cerimônia e sem convite. E não fez passagem porque tinha uma mensagem que eu não conseguia apreender. E eu me perguntava, por que esta frase, tão comum e tão pequena, fazia uma inscrição tão instigante?
O dia foi passando e mais tarde, num momento inesperado, o significado do significante foi se revelando, deixando assim de velar o que era um segredo, a frase deixou de ser como uma metáfora, e como uma metonímia, seguiu seu curso, fez sua passagem, e aí a luz se fez.
Não há novidade na afirmativa do avô feliz de que “vocês (nós todos) cresceram tanto”, a frase encerra uma afirmativa, justa e legítima eu insisto, que é visível, está para todos verem e, talvez, reconhecerem. A APAE cresceu tanto, é uma verdade indiscutível, mas aí neste alforje há algo mais do que uma verdade, há um reconhecimento, um testemunho admirado, que ao expressar a admiração do que fala, provoca orgulho no que escuta.
Então neste momento onde se cruzam o que diz o observador e o que escuta o ouvidor pude descobrir o que eu mesmo quis dizer, quando no Dia de Encontros de sexta-feira, 05 de Dezembro de 2008, disse à todos que não gostava de elogios, o que reafirmo aqui. Não gosto mesmo de elogios, mas gosto muito de reconhecimento.
Não há aqui um paradoxo, mas há uma diferença, fundamental e iniciática, pois permite que a sedução muito presente num elogio seja distinta de uma admiração justa presente no reconhecimento. E mais ainda, pois se o elogio nomeia e envaidece, deixando o elogiado como um narciso refém de sua paixão (por si mesmo), o reconhecimento apenas (re)conhece, reafirmando o valor do que se conseguiu, a importância do papel do bem-sucedido e a legitimidade do que foi feito.
Se o elogio é um convite ao silêncio, a uma cumplicidade, provocando dívida (e dúvida) e às vezes compromisso de retribuição, o reconhecimento dispõe um suporte, é um estímulo à ação, mas também gera um compromisso, um outro, bem diferente do anterior, pois implica no compromisso de continuar a fazer aquilo que se acredita e que cabe fazer.
Agora posso agradecer ao avô feliz com seu neto, pois numa prosaica fila de supermercado, afiançou com sua palavra o ganho que a auto-estima de cada um de nós, que aqui trabalha e produz, ganha a cada dia com uma realidade que não seduz.
José Luiz de Carvalho
DIRETOR-GERAL
Dezembro 2008
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