(Releitura do clássico “A Bela Adormecida na Floresta Amazônica”)
Ao nascer aquela menina tornou-se a única filha, sobrinha e neta daquela família cheia de mulheres histéricas e estéreis e de homens decepcionados e rancorosos, mas quase todos a receberam com condescendência e tolerância, uns chegaram até a cumprimentar os pais dela, mas uma tia feia, frígida, amarga, invejosa e seca rogou-lhe uma praga, que sempre seria uma mulher ingênua.
Ao nascer aquela menina tornou-se a única filha, sobrinha e neta daquela família cheia de mulheres histéricas e estéreis e de homens decepcionados e rancorosos, mas quase todos a receberam com condescendência e tolerância, uns chegaram até a cumprimentar os pais dela, mas uma tia feia, frígida, amarga, invejosa e seca rogou-lhe uma praga, que sempre seria uma mulher ingênua.
E como num conhecido conto de fadas esta praga foi em parte suavizada, pois uma tia piedosa e carola intercedeu e salvou-a da eterna ingenuidade, pois rezaria com fervor para que ao encontrar um touro carnívoro a sobrinha estaria livre do encanto.
Mas, um touro carnívoro? Perguntou perplexa a mãe em prantos e em lamentos o pai clamava aos céus. A considerar este despautério a filha estaria condenada eternamente à ingenuidade, seria sempre uma mulher-menina, um corpo de mulher feita habitado por um espírito infantil. Que desgraça!
O tempo passou naquela casa, e enquanto a menina era uma criança a maldição da tia feiosa e cheia de amargor ficou até esquecida, perdida no passado, sem registro e sem lembrança. Mas um dia a menina sangra e o corpo em transformação traz antigos fantasmas de volta, e sem cerimônia a frase maldita e forte como um imperativo assinala sua presença significante.
A menina transforma-se numa mulher, bela e atraente, mas ingênua, pueril, infantilizada, que passa o tempo a cantar, brincar de bonecas e a fazer tranças sem fim nos próprios cabelos. Sabia trançar, mas não sabia o que era transar, e encerrada nesta ingenuidade maldita os pais ficavam de guarda, sempre a postos, com olhos insones e vida suspensa, o tempo todo por conta da filha, uma menina eterna.
E a filha a cantar, a saltitar, a falar com as flores, a trocar segredos com esquilos e borboletas, e a se assustar todo o mês ao sangrar sem saber o porque. Estaria ferida por dentro, estaria com uma doença misteriosa? E apesar das negativas da mãe, que lhe garantia estar saudável, a filha ficava apenas a esperar o próximo mês.
E o touro carnívoro, que figura mítica é esta que não se sabe, que absurdo é este que tornou-se um ícone, onde pode ser encontrado? O pai não media esforços, já havia comprometido grande parte de seus bens nesta procura, prometera recompensa de valor, já viajara por tantos lugares em busca deste mistério, e nada, nem um sinal sequer do touro carnívoro.
Um dia a filha encontrou à beira do lago um grupo de primas distantes, e como todas as primas, um bando de rivais, venenosas, pérfidas e maliciosas, e como tal, jamais perderiam a oportunidade de infernizar a pobre ingênua. E o que lhe diziam de tão terrível? Ora caro leitor, apenas lhe garantiam que o touro carnívoro existia, e pior, apontavam para a pobre ingênua onde encontrar o tal animal, mas claro, insistiam que evitasse tal encontro fatal, pois como um carnívoro e, certamente, libidinoso e sedento de sangue ele a devoraria.
Foi o bastante para aquela ingênua entrar em surto paranóico, correr para a casa, recolher-se ao regaço da mãe e dizer que nunca mais sairia de casa. Mas quanto engano, quanta ilusão, a certeza da existência do touro carnívoro já se inscrevera em seu imaginário, o horror e o fascínio lhe instigavam, algo lhe queimava as entranhas, a última coisa que queria na vida era encontra-lo, mas era insuportável imaginar jamais encontra-lo. E neste paradoxo o inferno se instalou dentro dela.
Uma ingênua infernizada, tem situação pior?
Ela lutou durante dias e meses com aquela imagem demoníaca de como seria o touro carnívoro, lutou noites insones com o fantasma do touro a devorando, transpirou muito ao pressentir o touro insinuando-se ao seu redor, arrepiava-se ao sentir seu hálito quente a percorrer-lhe o corpo, a textura de seu pelo, a sinuosidade de suas curvas e a sedução de seu porte, potência e poder. Era demais para ela, chegou a pensar em...... morrer, claro que não, pensou em internar-se num convento, virar freira e pronto. Mas não foi nada disto que fez.
Foram dias e noites de luta inglória, às vezes por desespero pensava em reunir forças e ir ao encontro dele, mas as palavras das primas a inibiam, a faziam retornar ao medo e a submissão.
Um dia ao acordar lembrou-se do sonho da noite anterior, onde o touro numa tarde de tourada madrilenha foi morto por um toureiro já ferido, e ali, estarrecida ela percebeu que o touro não era imortal. E aí entendeu tudo, o touro não era um Deus. Decidiu então ir ao encontro dele, do touro carnívoro, para o que desse e viesse. E seja o que Deus quizer, ela disse para si mesma.
Olhou-se no espelho, mirou-se com atenção, e foi tensa, arfante e determinada ao encontro dele, e sem que decifrasse o enigma, foi, como uma sutil verdade, ao encontro de si mesma.
Anunciou-se e foi recebida bem, muito bem, havia cordialidade, atenção e até afetividade. Nada do horror imaginado ocorreu, a ingênua não derreteu em ondas convulsivas de transpiração, não perdeu a fala, não perdeu a cor e não perdeu a beleza, enfim, não ficou reduzida a um trapo como imaginara, e finalmente, não foi devorada.
Caro leitor, que espantoso, o encontro transcorreu e terminou na mais comum das normalidades, e ao sair daquela sala a ingênua descobrira três coisas:
1] entrara mulher-menina e saíra mulher, o que já era e não sabia
2] o touro carnívoro habita o imaginário das pessoas e não aquela sala
3] o que a maldição escondia era uma fraude, sendo uma trama perversa onde na ingenuidade permanente a pessoa fica refém de quem rogou a praga e não da besta-fera anunciada.
E os dias seguintes foram dias de acertar contas, com a tia feiosa e amarga, e também com a perfídia das primas, e para acerto final descobriu por fim que ao sangrar todo mês, por mais incomodo que seja, uma menina morria.
José Luiz de Carvalho
Psicólogo/ Psicanalista
2009
José Luiz de Carvalho
Psicólogo/ Psicanalista
2009
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