domingo, 18 de abril de 2010

A Carta de Alforria em Branco

(Capítulo I: O documento vazio), texto que pertence a duas coleções:
Coleção A - “Desgraça pouca é bobagem”
Coleção B - “Pimenta no .. do outro é refresco”

Era uma vez, em um reino perdido no tempo e no espaço, um escravo comemorava sua liberdade, obtida à duras penas depois de anos de escravidão, obediência e falta de horizonte na vida. E naquele momento de sua vida o que o separava da condição de escravo liberto era sua carta de alforria, ainda por ser assinada por seu “dono”, ato que aguardava com alegria e apreensão.

Felizmente o suposto ato ocorreu com brevidade, e no dia seguinte o escravo recebia em mãos o que acreditava ser sua carta de alforria, e naquele instante com a carta nas mãos, que para ele era como um documento sagrado, virou as costas para aquela Casa Grande e sua Senzala e tomou um rumo desconhecido.

Seu estado de graça era tanto que segurava a carta como quem segura um bebê recém-nascido ou como quem contêm uma borboleta com ambas as mãos, com um cuidado hábil e atencioso, um duplo de firmeza e delicadeza, mas descuidou-se do principal, pois tamanha era sua fascinação que não teve o cuidado de abrir o papel e tomar ciência de seu conteúdo. E isto lhe foi fatal.

Certamente o leitor deve estar inquirindo que um escravo não saberia ler, e portanto o conteúdo não lhe diria grande coisa, mas caro leitor atente para um detalhe, pois se o iletrado escravo não saberia decifrar o conteúdo da carta, saberia distinguir naquele papel uma folha em branco de uma folha escrita. E certificar-se desta distinção fundamental não lhe ocorreu, talvez por confiar em seu agora ex-amo e ex-dono ou pela intensa magia que lhe envolvia a ponto de deixar-se refém da ingenuidade.

E como já disse antes, isto lhe foi fatal, pois logo depois encontrou com um certo Capitão do Mato que, com a habitual tarefa de perseguir escravos fujões, logo acreditou estar diante de mais um, e assim o alcançou e o laçou, lançando-o novamente na condição de escravo. E claro que mais do que depressa o ex-escravo bradou ao Capitão do Mato sua nova condição mostrando-lhe também sua carta de alforria, no seu entender a prova de sua agora condição de escravo liberto.

Mas para sua decepção e, digamos, profundo horror, o que obteve daquele Capitão do Mato foi uma sonora gargalhada e uma dolorosa chibatada, pois naquela folha de papel não havia nada escrito, não havia prova de sua nova situação, nada havia mudado, e ali humilhado e sem argumento sentiu uma nova canga a pesar-lhe sobre os ombros, e constatou com amargor seu retorno a uma situação de que jamais saíra.

Moral da estória: A vida é imoral se não conhecemos a moralidade da qual fazemos parte

Setembro de 2009

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

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