domingo, 18 de abril de 2010

“As filhas de Maria e as órfãs de José”

Da peça “O Martírio” - epílogo


Maria se esforça, e como se esforça,
para ser boa mãe.

Dedica-se a defender as filhas,
a protegê-las até do bicho papão.
Riem juntas, choram juntas,
mima, acalenta,
até faz pantomima.

Ao mesmo tempo lamenta
a triste sina das filhas de Maria,
lembrando-lhes sempre que são órfãs de José.

E as filhas de Maria, como um rebanho,
dizem em lamento “somos órfãs de José!”
E assim ficam a aguardar a volta de José,
a esperar uma atenção de José,
a desejar José.

Mas a orfandade é uma faca de dois gumes,
pois se para algumas filhas de Maria a orfandade
é uma condenação a aguardar José na companhia eterna de Maria,
para outras filhas de Maria a orfandade
é a chance de existir.

Existir por si,
falar por si,
pensar por si,
concluir por si.
Sem ser filha de Maria e órfã de José.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
DIRETOR GERAL
Maio de 2008

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