domingo, 18 de abril de 2010

As pernas do Senhor Reitor

(versão pornô do clássico “As pupilas do Senhor Reitor”)

Parte I (O abismo se aproxima)

No gabinete do Senhor Reitor havia um calendário bem posicionado na parede defronte da mesa onde ele despachava, e não era um calendário comum pois este somente marcava a passagem dos anos, não havia registro de dias e de meses. Ao Senhor Reitor só interessava o registro implacável da sucessão fria, metódica e impessoal dos anos, e ali ficava assinalado o peso da temporalidade que tanto assombra a homens e mulheres já chegados na meia idade.

Como num exercício cruel de um hábito sádico o Senhor Reitor nunca deixava de consultar o tal calendário, o que lhe despertava uma enorme angústia e, como não poderia deixar de ser, também um gozo negado, como uma dor temida , se evitada na palavra, era com sofreguidão procurada pelo olhar. E assim transcorriam os dias naquele gabinete quase lúgubre, onde o tempo não fluía como deve ser, mas marcava com seu compasso marcial a vida que lhe restava.
E afinal quem era o Senhor Reitor? A autoridade máxima de um venerável e centenário Liceu, ora veja, um Liceu, a esparramar-se num imenso campus em um país qualquer deste vasto mundo. É preciso dizer que se tratava de um homem íntegro, formal e muito cioso da liturgia do cargo e de sua biografia sem dúvidas nas linhas e sem mistérios nas entrelinhas.

O Senhor Reitor era um homem respeitado, sóbrio, cheio de formalidades, sempre no limite da acessibilidade e da distância respeitosa, sempre atento aos detalhes da etiqueta social, dos hábitos de sua condição social e, com rigor, nunca descuidando-se dos trajes que completavam a composição de sua imagem. Em síntese, sempre vestido com formalidade, com a pompa e a circunstância de um Senhor Reitor permanente, no público e no privado, no calor e no frio, a beira mar ou numa festa, em férias ou no trabalho, numa audiência ou na alcova, um mesmo o tempo todo. Por certo, quase uma múmia que transpirava.

Claro que as pessoas que o circundavam o viam ora sob o viés da admiração e respeito, mas também ora sob o viés da consternação e ironia, pois ali se cruzavam uma pose litúrgica e também uma pose patética. Caro leitor não se deixe enganar pelas aparências, pois o que se aparenta é apenas uma mensagem, um fragmento, o significante é o que escapa pelo absurdo. E neste pormenor aparentemente nada escapava ao Senhor Reitor, apenas o tempo, apesar da máscara de eternidade que sustentava.

Parte II (O Rei ficou nu)

E o que é o inesperado senão vicissitudes da vida?

Um dia o Senhor Reitor foi assaltado, roubaram-lhe a algibeira, sua bota gomeira e suas vestes sacerdotais, e assim tão constrangido, sem capa, sem coroa e sem cetro perdeu pompa, realeza e circunstância, ficando reduzido a um sujeito qualquer, um João ou um José.

A princípio naquela situação absurda e inominável só lhe restava a desonra e a vergonha eterna, era assim que se sentia, pensou em esconder-se na mata, sumir no mundo, desaparecer sem deixar vestígios, afinal perdera tudo, sem suas vestes fidagais, sem aquela pose toda, sobretudo sem sua armadura e sem sua máscara, o que restara do Senhor Reitor? E ele a pensar se indagava, o que restaura o Senhor Reitor?

E o que é um homem nu, muito mais do que pelado, e digo nu em todas as acepções do termo, pois assim ele estava, total e completamente nu, sem defesas, sem artifícios, sem estratagemas, sem posses e sem potência? E o que é um homem impotente senão um destituído daquilo que a cultura lhe confere como viril?

Não pense o caro leitor que nosso herói havia ficado com uma repentina disfunção erétil, não é este o caso, a coisa era muito mais grave, e além do mais nos dias de hoje a química farmacêutica vem apresentando um arsenal “levanta defunto” indiscutível, portanto vamos nos ater a algo mais importante, pois ele estava ferido na alma, era sua identidade, eram seus valores, tudo o que lhe importava ruíra, o calendário perdera seu significado na insignificância dele.

Parte III (Este sujeito é foda)

Como Narciso que um dia se viu refletido na água do lago, e deslumbrado com a própria beleza afundou-se na tentativa desesperada e insana de eternizar-se, nosso herói se viu refletido na água do lago, nu, ferido e decepcionado, e logo percebeu que tinha a seu alcance três caminhos a princípio, repetir este mito num acesso narcísico e afogar-se encerrando seu drama num dramalhão de quinta categoria, contentar-se com sua pequenez e passar a vida fugindo da depressão que certamente se tornaria sua companheira de jornada ou enxergar no refletido o que por si só não conseguir ver.

Corajosamente fez sua escolha pelo terceiro caminho, e não arrependeu-se.

O que a água do lago refletia para ele era que em seu narcisismo ferido havia um herói morto, um rei sem trono e um sábio contestado, ao mesmo tempo que ali podia renascer um novo homem, inscrever um outro nome e iniciar a escrita de uma nova estória, apesar da soma de anos que aquele calendário já lhe sentenciara.

Esquivando-se daquele famoso conto “O Rei está Nu” onde toda a plebe do reino não ousava ver a nudez do rei e assim, num delírio coletivo e numa cegueira de submissão, todos elogiavam a roupa invisível e inexistente do monarca absoluto, aquele sujeito levantou-se, agitou a água do lago dissipando a sedução do refletido, aprumou-se, reconheceu-se pelado, não mais nu, surpreendeu-se admitindo ter belas pernas e tomou o caminho contrário do Liceu.

E agora caro leitor? Garanto-lhe que não foi uma escolha indolor, o sujeito sofreu os diabos, enfrentou a ira divina, o dogma dos sábios e a certeza dos enviados, mas não desistiu. O que se sabe é que nunca mais voltou ao Liceu, aquele seu gabinete lúgubre tornou-se um túmulo vazio preenchido apenas por um calendário parado no tempo, e seus caminhos na vida a partir de então se tornaram um permanente interrogante e um incessante desejar.

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Fevereiro de 2010

A Camponesa e o Touro Carnívoro

(Releitura do clássico “A Bela Adormecida na Floresta Amazônica”)


Ao nascer aquela menina tornou-se a única filha, sobrinha e neta daquela família cheia de mulheres histéricas e estéreis e de homens decepcionados e rancorosos, mas quase todos a receberam com condescendência e tolerância, uns chegaram até a cumprimentar os pais dela, mas uma tia feia, frígida, amarga, invejosa e seca rogou-lhe uma praga, que sempre seria uma mulher ingênua.

E como num conhecido conto de fadas esta praga foi em parte suavizada, pois uma tia piedosa e carola intercedeu e salvou-a da eterna ingenuidade, pois rezaria com fervor para que ao encontrar um touro carnívoro a sobrinha estaria livre do encanto.

Mas, um touro carnívoro? Perguntou perplexa a mãe em prantos e em lamentos o pai clamava aos céus. A considerar este despautério a filha estaria condenada eternamente à ingenuidade, seria sempre uma mulher-menina, um corpo de mulher feita habitado por um espírito infantil. Que desgraça!

O tempo passou naquela casa, e enquanto a menina era uma criança a maldição da tia feiosa e cheia de amargor ficou até esquecida, perdida no passado, sem registro e sem lembrança. Mas um dia a menina sangra e o corpo em transformação traz antigos fantasmas de volta, e sem cerimônia a frase maldita e forte como um imperativo assinala sua presença significante.

A menina transforma-se numa mulher, bela e atraente, mas ingênua, pueril, infantilizada, que passa o tempo a cantar, brincar de bonecas e a fazer tranças sem fim nos próprios cabelos. Sabia trançar, mas não sabia o que era transar, e encerrada nesta ingenuidade maldita os pais ficavam de guarda, sempre a postos, com olhos insones e vida suspensa, o tempo todo por conta da filha, uma menina eterna.

E a filha a cantar, a saltitar, a falar com as flores, a trocar segredos com esquilos e borboletas, e a se assustar todo o mês ao sangrar sem saber o porque. Estaria ferida por dentro, estaria com uma doença misteriosa? E apesar das negativas da mãe, que lhe garantia estar saudável, a filha ficava apenas a esperar o próximo mês.

E o touro carnívoro, que figura mítica é esta que não se sabe, que absurdo é este que tornou-se um ícone, onde pode ser encontrado? O pai não media esforços, já havia comprometido grande parte de seus bens nesta procura, prometera recompensa de valor, já viajara por tantos lugares em busca deste mistério, e nada, nem um sinal sequer do touro carnívoro.

Um dia a filha encontrou à beira do lago um grupo de primas distantes, e como todas as primas, um bando de rivais, venenosas, pérfidas e maliciosas, e como tal, jamais perderiam a oportunidade de infernizar a pobre ingênua. E o que lhe diziam de tão terrível? Ora caro leitor, apenas lhe garantiam que o touro carnívoro existia, e pior, apontavam para a pobre ingênua onde encontrar o tal animal, mas claro, insistiam que evitasse tal encontro fatal, pois como um carnívoro e, certamente, libidinoso e sedento de sangue ele a devoraria.

Foi o bastante para aquela ingênua entrar em surto paranóico, correr para a casa, recolher-se ao regaço da mãe e dizer que nunca mais sairia de casa. Mas quanto engano, quanta ilusão, a certeza da existência do touro carnívoro já se inscrevera em seu imaginário, o horror e o fascínio lhe instigavam, algo lhe queimava as entranhas, a última coisa que queria na vida era encontra-lo, mas era insuportável imaginar jamais encontra-lo. E neste paradoxo o inferno se instalou dentro dela.

Uma ingênua infernizada, tem situação pior?

Ela lutou durante dias e meses com aquela imagem demoníaca de como seria o touro carnívoro, lutou noites insones com o fantasma do touro a devorando, transpirou muito ao pressentir o touro insinuando-se ao seu redor, arrepiava-se ao sentir seu hálito quente a percorrer-lhe o corpo, a textura de seu pelo, a sinuosidade de suas curvas e a sedução de seu porte, potência e poder. Era demais para ela, chegou a pensar em...... morrer, claro que não, pensou em internar-se num convento, virar freira e pronto. Mas não foi nada disto que fez.

Foram dias e noites de luta inglória, às vezes por desespero pensava em reunir forças e ir ao encontro dele, mas as palavras das primas a inibiam, a faziam retornar ao medo e a submissão.
Um dia ao acordar lembrou-se do sonho da noite anterior, onde o touro numa tarde de tourada madrilenha foi morto por um toureiro já ferido, e ali, estarrecida ela percebeu que o touro não era imortal. E aí entendeu tudo, o touro não era um Deus. Decidiu então ir ao encontro dele, do touro carnívoro, para o que desse e viesse. E seja o que Deus quizer, ela disse para si mesma.
Olhou-se no espelho, mirou-se com atenção, e foi tensa, arfante e determinada ao encontro dele, e sem que decifrasse o enigma, foi, como uma sutil verdade, ao encontro de si mesma.

Anunciou-se e foi recebida bem, muito bem, havia cordialidade, atenção e até afetividade. Nada do horror imaginado ocorreu, a ingênua não derreteu em ondas convulsivas de transpiração, não perdeu a fala, não perdeu a cor e não perdeu a beleza, enfim, não ficou reduzida a um trapo como imaginara, e finalmente, não foi devorada.

Caro leitor, que espantoso, o encontro transcorreu e terminou na mais comum das normalidades, e ao sair daquela sala a ingênua descobrira três coisas:

1] entrara mulher-menina e saíra mulher, o que já era e não sabia
2] o touro carnívoro habita o imaginário das pessoas e não aquela sala
3] o que a maldição escondia era uma fraude, sendo uma trama perversa onde na ingenuidade permanente a pessoa fica refém de quem rogou a praga e não da besta-fera anunciada.
E os dias seguintes foram dias de acertar contas, com a tia feiosa e amarga, e também com a perfídia das primas, e para acerto final descobriu por fim que ao sangrar todo mês, por mais incomodo que seja, uma menina morria.



José Luiz de Carvalho
Psicólogo/ Psicanalista

2009

O Pesadelo

ou (título alternativo mais otimista)

A Dama da Noite saiu do Armário

Primeiro foi o filho mais velho que arranjou um rabo-de-saia, amasiou-se e se mudou para Barra Mansa, em seguida foi a filha que foi fazer MBA em Londres sem data para retornar, depois o terceiro filho, um macho tão arretado, apaixonou-se por um garotão da praia e foram surfar na Califórnia, e para completar, o caçula querido teve uma crise mística, acordou dizendo-se ser São Judas Tadeu, resolveu ser missionário embrenhando-se na selva para sempre, e como desgraça vem em van lotada e com fretamento pago antecipado, o marido teve uma diarréia violenta, entre crises de flatulência e desidratado, finou-se.

Dias difíceis aqueles, de repente uma casa tão cheia, uma família tão unida, um destino tão combinado e tudo dissipou-se no ar, o que era encanto se quebrou, e o que sobrou foi, a princípio, apenas desencanto, desespero e uma tenebrosa solidão.

Claro que os planos desta mulher eram outros, estava tudo tão tranqüilo, tão no combinado, tudo tão certinho, para que mudar? No máximo ela esperava uma velhice tranqüila, um tanto sem graça é verdade, mas ao lado de seu “velhinho”, com algumas rabugices o que seria natural, mas um doce envelhecer ao pôr-do-sol, um balançar sossegado na velha cadeira de balanço, um chazinho quente nas noites frias e um terço rezado junto ocasionalmente antes de apagar a luz.
Quanto aos filhos estava tudo tão pensado, o filho mais velho bem casado lhe daria os primeiros netos, a filha seria diretora da escola pública ali do bairro mesmo, o terceiro falava em ser um jogador de futebol do time da cidade e o caçula, ah, o caçula, este seria a companhia dos pais, certamente se casaria com uma boa moça e ficariam morando ali mesmo, num puxadinho no fundo do quintal.

Entretanto veio o pesadelo, e como um vento malvado, tudo levou, e nada sobrou.

De repente ela se deu conta de que a mesa ficou vazia, sobrou apenas um prato e uma dupla de talheres, havia perdido tudo, até a vontade de comer, e com o corpo pesado deixou-se cair na cama à espera da morte chegar. E esperou, esperou, e a morte, aquela traidora, contudo não chegou.

Mas o tempo passa, e se não mata, cura, e foi o que aconteceu.

Um dia acordou transpirando, havia sido uma noite quente, insone e longa, como tantas, e ao invés de tentar suicidar-se mais uma vez, decidiu por uma chuveirada matinal, mas ao passar diante do espelho levou um susto e quase enfartou. Como um raio tomou consciência de que continuava viva, corada e transpirante, e neste estado de coisas, descobriu que sentia desejo, e desejo carnal.

O destino lhe reservara uma armadilha pois se a mortalha para seu cortejo fúnebre já estava passada, dobrada e pronta para uso, um calor diabólico lhe ruborizava as faces, lhe queimava o ventre e lhe incitava à vida, e não seria uma prosaica chuveirada matinal que lhe apaziguaria os tormentos.

E naquele desvario pode compreender que se haviam morrido nela uma mãe generosa e uma esposa submissa, renascia nela uma mulher.

Refeita do susto escovou os dentes, olhou-se com vagar no espelho, contou as rugas que a angústia e o desespero desenharam em seu rosto, conferiu os cabelos brancos que o descuido permitiu, mirou-se toda com calma, permitiu-se reconhecer que continuava bonita, com musculatura firme, curvas bem delineadas e sensuais, movimentos ágeis e graciosos, e perplexa, concluiu ser uma mulher interessante, atraente e gostosa.

Aí então suspirou, foi até à janela, tomou a brisa da manhã entre afagos do sol, e saiu a dançar pelo quarto, pela casa e pelo jardim.

E aquele dia foi um dia de faxina, na casa, no corpo e na alma. Jogou fora as caixas de remédio para azia, enjôos, dores aqui e acolá, insônia, rasgou umas fotografias da família tiradas em Caxambu, queimou cartinhas de amor de um ex-namorado que guardava apesar de seu enlace feliz, jogou no lixo um par de xícaras com uma inscrição “aqui reina a felicidade” que ganhara de presente do finado em excursão à Aparecida do Norte, abriu todas as janelas, encheu a casa de flores e, exausta e feliz, foi tomar banho de espuma perfumada em sua banheira esquecida.

Decidida a tomar a vida nas mãos e faze-la valer a pena trocou seu Gol usado por um Peugeot prata, vendeu aquela casinha financiada pelo BNH que durante tanto tempo fora seu lar-doce-lar, comprou um Loft em endereço descolado e mudou-se para lá. E como o diabo veste Prada foi assim que se vestiu, com salto agulha 10 e uma bolsa Hermés a tiracolo sentiu-se pronta para o próximo passo. Não era mais uma dona de casa, uma mãe generosa e uma esposa submissa, agora era uma nova mulher, e como não pode deixar de ser faltavam um novo trabalho, novos amizades e um novo homem. Por que não?

Em resumo esta é a estória desta mulher renascida, que se antes era apenas bem nascida, agora fez do pesadelo uma mudança de curso, tomou sua vida à pulso, acreditou que as curvas do rio guardam sempre uma surpresa, e que se o destino faz suas estripulias e zomba muitas vezes de todos nós, há muito ainda o que fazer e que nos cabe, depois do tombo, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Antes de encerrar este relato preciso contar ao leitor o que tem ocorrido nestes novos tempos com esta mulher admirável. Empregou-se como barista num café chique no Itaim-Bibi, conheceu um bonitão, que apaixonado por ela ficou no ato, um sujeito simpático, inteligente, bem humorado, rico e boa pinta (e ainda por cima bom de pinto, UAU!). E hoje, exatamente hoje, estão em férias num “doce farniente” na costa Amalfitana.

The End.



José Luiz de Carvalho
PSICÓLOGO e PSICANALISTA

A Carta de Alforria em Branco

(Capítulo I: O documento vazio), texto que pertence a duas coleções:
Coleção A - “Desgraça pouca é bobagem”
Coleção B - “Pimenta no .. do outro é refresco”

Era uma vez, em um reino perdido no tempo e no espaço, um escravo comemorava sua liberdade, obtida à duras penas depois de anos de escravidão, obediência e falta de horizonte na vida. E naquele momento de sua vida o que o separava da condição de escravo liberto era sua carta de alforria, ainda por ser assinada por seu “dono”, ato que aguardava com alegria e apreensão.

Felizmente o suposto ato ocorreu com brevidade, e no dia seguinte o escravo recebia em mãos o que acreditava ser sua carta de alforria, e naquele instante com a carta nas mãos, que para ele era como um documento sagrado, virou as costas para aquela Casa Grande e sua Senzala e tomou um rumo desconhecido.

Seu estado de graça era tanto que segurava a carta como quem segura um bebê recém-nascido ou como quem contêm uma borboleta com ambas as mãos, com um cuidado hábil e atencioso, um duplo de firmeza e delicadeza, mas descuidou-se do principal, pois tamanha era sua fascinação que não teve o cuidado de abrir o papel e tomar ciência de seu conteúdo. E isto lhe foi fatal.

Certamente o leitor deve estar inquirindo que um escravo não saberia ler, e portanto o conteúdo não lhe diria grande coisa, mas caro leitor atente para um detalhe, pois se o iletrado escravo não saberia decifrar o conteúdo da carta, saberia distinguir naquele papel uma folha em branco de uma folha escrita. E certificar-se desta distinção fundamental não lhe ocorreu, talvez por confiar em seu agora ex-amo e ex-dono ou pela intensa magia que lhe envolvia a ponto de deixar-se refém da ingenuidade.

E como já disse antes, isto lhe foi fatal, pois logo depois encontrou com um certo Capitão do Mato que, com a habitual tarefa de perseguir escravos fujões, logo acreditou estar diante de mais um, e assim o alcançou e o laçou, lançando-o novamente na condição de escravo. E claro que mais do que depressa o ex-escravo bradou ao Capitão do Mato sua nova condição mostrando-lhe também sua carta de alforria, no seu entender a prova de sua agora condição de escravo liberto.

Mas para sua decepção e, digamos, profundo horror, o que obteve daquele Capitão do Mato foi uma sonora gargalhada e uma dolorosa chibatada, pois naquela folha de papel não havia nada escrito, não havia prova de sua nova situação, nada havia mudado, e ali humilhado e sem argumento sentiu uma nova canga a pesar-lhe sobre os ombros, e constatou com amargor seu retorno a uma situação de que jamais saíra.

Moral da estória: A vida é imoral se não conhecemos a moralidade da qual fazemos parte

Setembro de 2009

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

A alcova, o relógio de ponto e o espelho

(este texto faz parte da coletânea “Memórias Póstumas de um Gaiato”)
Setembro de 2009

Um surto de fertilidade nos atinge
Um golpe o destino nos impinge
Mulheres grávidas aos borbotões
Santo Cristo, que gente sem milonga e sem demora
Na calada da noite, na verdade nem tão calada assim
Na madrugada, ao amanhecer, a qualquer hora
Rapidinhas, vapt-vupt, ou elaboradas com grandes acrobacias e imaginação
Não importa o momento, o lugar e a condição
Para a cena primária poucas tem resistido à tentação.

E o resultado aí está
Embarrigadas, embuchadas, engravidadas, todas orgulhosas, lindas e felizes
Também pudera, são sonhos de todos os matizes
Uma penca
Uma multidão
Mulheres de todo o escalão
Felizes a balançar seu barrigão.

Do ponto de vista administrativo é um desastre
Uma pane na linha de produção
A alcova invadiu o relógio de ponto
Instalou-se o caos na escala de trabalho
Na primazia da gestação, há um excesso de ocorrência
Não tem outro jeito
Abram alas para ela passar, a mulher quase mãe tem preferência.

Contudo a fertilidade tem várias acepções
É o encontro de um sêmen esperto com um óvulo desperto
Como também o é uma semente que encontra uma terra generosa e úmida
E assim sendo fica um desafio, para cada um e para todos nós
Que semeadura temos feito na vida?
Que novidades temos introduzido em nossa rotina?
Ou apenas nos resignamos a uma suposta sina?
Que transformações temos tido a coragem de provocar?
Que temos refletido de novo diante do espelho que nos evoca?
A que a vida nos convoca, e que apesar de férteis, temos respondido com um ato estéril?

José Luiz de Carvalho
PSICÓLOGO/PSICANALISTA

O Descobrimento da América

Sabem porque as Américas existem como são?
Porque um dia alguém muito corajoso atravessou o oceano em busca de um novo mundo.
Mas é bom que saibam que não foi uma travessia fácil, é possível que parte da esquadra tenha desistido, se perdido ou afundado, mas uma parte conseguiu e o mundo “ficou maior” devido a isto.

Os projetos pedagógicos (a partir do Projeto Institucional 0203) estão como uma travessia de oceano em busco de um mundo novo.
Uma travessia difícil, não se pode negar, e mais difícil ainda porque tem “muitos capitães para poucos barcos”, e onde tem “muitos capitães” falta comando e sobram motins, intrigas e alucinações.

Mas não deixa também de ser cômico esta travessia, pois além de “marinhos de primeira viagem” este galeão também carrega personagens os mais bizarros, a saber:
O general da banda e o capitão gancho
Algumas gatas borralheiras
A inseparável dupla Mortiça e Macumbeira
A inefável fada madrinha (infelizmente em estado agônico)
Jezebel, Rapunzel e Belzebu
As filhas órfãs de Maria
Umas sirigaitas sempre na surdina
As carpideiras de costume
As seguidoras de Nostradamus, arautos do apocalypse
E, felizmente, também as carpinteiras.

Entretanto, como diz o poeta português, “navegar é preciso, viver não é preciso”, e assim, o galeão singra os mares e já, já teremos “terra à vista”.

Para finalizar só posso dizer, aos que não afundarem pelo caminho, bem vindos ao novo mundo!


José Luiz de Carvalho
DIRETOR GERAL



“A cama foi parar na sala”

(da série Um é pouco, Dois muito difícil, Três impossível)
Março de 2009

São tantas as queixas, são muitos os lamentos e tão freqüentes os murmúrios
Que dá para se perguntar: afinal o que está acontecendo no leito conjugal?
Parece que falta ação, e sobra decepção
As mulheres estão insones, e os homens em sono profundo
Que desgraça, o sexo perdeu a graça?
Mas isto é o fim do mundo!

De uns tempos para cá a porta do quarto se abriu
E todo o segredo se revelou um mito viril
Onde a mulher contentava-se em agradar ao parceiro
Enquanto ele sonhava estar num puteiro
Ela se reprimia num silêncio vil

Mas os tempos são outros, como se sabe o tempo é o senhor da razão
E como num motim orgástico
As mulheres rompem o pacto nupcial, rasgam sua bolha de plástico
E de rainhas do lar, que coisa cafona
Saem do trono, jogam o castelo no chão
Exigem direitos na cama e jogam os homens na lona

E agora José, João, Pedro, Francisco e Simeão?
O orgasmo deixou de ser um privilégio do macho
As mulheres também querem neste festim seu quinhão
Não vão se contentar em ser apenas depositária
Querem também ser mandatária

E elas estão certas, como não?
Sexo só para procriação, como sagrado dever do matrimônio, era coisa de antanho
Não dá para se estar casado como se o outro fosse um estranho
É preciso intimidade, desejo e sedução
Muito prazer, imaginação e posições de corar um cristão

Mas o homem perplexo ainda não decifrou
Os labirintos deste complexo
Entretanto não há muito mistério
Sexo é uma questão de vida, tanto para o homem como para a mulher
E é preciso muita adrenalina na cama
Vale até fantasia de garanhão e messalina
Para não fazer do casamento um cemitério.

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

O Fantasma pulou a cerca

Capítulo I: Vou comprar um revólver, mas não sei atirar.
Fevereiro de 2009

Um ladrão invadiu a casa de minha vizinha, uma mulher que mora sozinha.
Ela desesperada instalou grades nas janelas,
E no dia seguinte apareceu um gato preto morto em sua porta.
E a mulher em pânico total, quase cortou a própria aorta.

Moral da história: a mulher agora decidiu que sua casa não vai ter mais porta.

E aqui fica uma primeira questão, a grade, a cerca, o alarme não são mais suficientes,
A paranóia virou arroz com feijão,
Todo dia em nossa mesa, prato único de nossa refeição?
Um dia é o ladrão, no outro o gato morto?
Um medo constante, insidioso, amorfo, que nos atravessa,
A nos atormentar sempre, ora essa!

Por supuesto, hermosa platéia,
Há.sempre uma alcatéia a nos espreitar.
E muito além de trancas, chaves e cercas elétricas,
O inimigo é visto fora, projetado no ladrão e no gato morto.
Mas seu ninho está no que cada um guarda dentro de si,
Pois o que cada um não vê em si, vê pior no outro.
Como um segredo, um temor, que aos poucos transforma-se em tumor.

E lancetar o tumor, vazá-lo, deixar escorrer o que cheira mal,
O que nos apodrece, o que nos adoece,
Exige coragem, destemor, uma atitude.

E neste ponto a humanidade divide-se,
Entre aqueles que fazem de sua casa, e de sua vida, uma casamata,
Onde a cada dia se morre um pouco.
E aqueles que exorcisam os próprios fantasmas, que patéticos, somem no ar,
E a cada dia se vive um a mais.

Que cada um faça sua escolha,
E desista de morar numa bolha,
Inútil, patética, melancólica.
Que cada um possa encarar os labirintos de seus medos,
Elucidar o mistério de seus segredos,
Sair ao sol, descansar à sombra, fazer amor com a natureza,
E cuidar de si sem entregar a vida como resgate.
José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

ELOGIO e RECONHECIMENTO

(uma reflexão sôbre a diferença entre narcisismo e auto-estima)

Hoje, sábado dia 06 de Dezembro de 2008, me posto numa fila de supermercado, numa ação corriqueira do cotidiano de um sábado sem programa melhor. E logo atrás tem um senhor já aposentado, um avô feliz que fala de seus programas com o neto, e no decorrer da conversa fala da APAE para mim, e diz: vocês cresceram tanto!

Saí do supermercado e a frase dele não saiu de minha cabeça, apeou e tomou lugar, sem cerimônia e sem convite. E não fez passagem porque tinha uma mensagem que eu não conseguia apreender. E eu me perguntava, por que esta frase, tão comum e tão pequena, fazia uma inscrição tão instigante?

O dia foi passando e mais tarde, num momento inesperado, o significado do significante foi se revelando, deixando assim de velar o que era um segredo, a frase deixou de ser como uma metáfora, e como uma metonímia, seguiu seu curso, fez sua passagem, e aí a luz se fez.

Não há novidade na afirmativa do avô feliz de que “vocês (nós todos) cresceram tanto”, a frase encerra uma afirmativa, justa e legítima eu insisto, que é visível, está para todos verem e, talvez, reconhecerem. A APAE cresceu tanto, é uma verdade indiscutível, mas aí neste alforje há algo mais do que uma verdade, há um reconhecimento, um testemunho admirado, que ao expressar a admiração do que fala, provoca orgulho no que escuta.

Então neste momento onde se cruzam o que diz o observador e o que escuta o ouvidor pude descobrir o que eu mesmo quis dizer, quando no Dia de Encontros de sexta-feira, 05 de Dezembro de 2008, disse à todos que não gostava de elogios, o que reafirmo aqui. Não gosto mesmo de elogios, mas gosto muito de reconhecimento.

Não há aqui um paradoxo, mas há uma diferença, fundamental e iniciática, pois permite que a sedução muito presente num elogio seja distinta de uma admiração justa presente no reconhecimento. E mais ainda, pois se o elogio nomeia e envaidece, deixando o elogiado como um narciso refém de sua paixão (por si mesmo), o reconhecimento apenas (re)conhece, reafirmando o valor do que se conseguiu, a importância do papel do bem-sucedido e a legitimidade do que foi feito.

Se o elogio é um convite ao silêncio, a uma cumplicidade, provocando dívida (e dúvida) e às vezes compromisso de retribuição, o reconhecimento dispõe um suporte, é um estímulo à ação, mas também gera um compromisso, um outro, bem diferente do anterior, pois implica no compromisso de continuar a fazer aquilo que se acredita e que cabe fazer.

Agora posso agradecer ao avô feliz com seu neto, pois numa prosaica fila de supermercado, afiançou com sua palavra o ganho que a auto-estima de cada um de nós, que aqui trabalha e produz, ganha a cada dia com uma realidade que não seduz.


José Luiz de Carvalho
DIRETOR-GERAL
Dezembro 2008

Homens-Meninos

(ou, título alternativo: “Tenho um pinto, mas ainda sou um pinto”)
Da coletânea “O macho sou eu....socorro, mamãe!”
Setembro de 2008

Há homens,
Há meninos,
E há homens-meninos.

Todos tem pênis,
Mas nem todos tem falo.
Porque há uma diferença,
Entre ser o falo, e ter o falo.

Ser o falo é permanecer sendo o que falta à mamãe,
Ter o falo é desejar além da mãe.

Mas esta diferença não é um presente do tempo,
não é um ato pronto da vida,
não é algo que se compra,
E muito menos um privilégio do macho.

Deixar de ser menino e virar homem pelo corpo é fácil.
É uma solução hormonal.
O difícil é não acabar(se) em homem-menino,
Preservando um menino num corpo de homem.

Tendo pêlos, tendo gozo, tendo ereção,
Mas que decepção,
Ainda sonhando com os seios de mamãe.

Aos homens o enigma está colocado,
E a ser decifrado,
Numa aventura lenta, longa e misteriosa,
Sem piadas, sem exibicionismo, sem auto-idolatria, sem homofobia.

Onde ao final do percurso,
Deixe de ser objeto de gozo da mãe,
Provoque a admiração do pai,
E seja capaz de dar prazer e sustentar o desejo de outra mulher.

Porque não há fracasso maior para um homem,
Sendo um homem-menino deixar decepcionada esta outra mulher.
E como numa inútil batalha,
Ele a brandir o pênis como um troféu,
E ela a responder-lhe como uma mortalha.

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

PROJETO DE VIDA E PROJETOS NA VIDA

Extratos de escritos de autor desconhecido “Relatos de um crime”
Tomo I :“Mamãe sufocou os filhos com os próprios seios e depois foi fazer as unhas”

O que é uma vida sem projetos?
Sem desejos, sem sonhos, sem utopia, sem paixão.
Sem o desejar.
É vida sem vida
É um morrer para a vida.

Nascer, crescer, adolescer, adoecer, se curar (ou não),
Casar, trabalhar, pagar dívida, endividar-se,
Engravidar, parir, transar, trançar, traçar,
Amadurecer, fenecer e finar-se,
Não pode ser tudo na vida.
Isto a vida já (nos) dá,
Aí que pode faltar vida.

Cuidar dos filhos é projeto DE vida?
“Ir levando” é projeto DE vida?
Amanhecer, entardecer, anoitecer, e começar tudo de novo, é projeto DE vida?
Aposentar é projeto DE vida?
Claro que não, isto é parte da vida.
Entretanto, para muita gente isto é a vida.

A vida exige mais,
Exige o viver, não o sobreviver.
O viver é um a mais.
É o que está nos projetos NA vida,
Pois não há projeto DE vida, mas projetos EM vida.

E apesar de meu gozo com meu guizo,
Um dia me deparo com o espelho, este velho dedo-duro.
E o que vejo quando me vejo no espelho?
O tempo que passa,
Ou um compasso no tempo?

Embora com desgosto, não dá para quebrar o espelho,
É na imagem especular que a verdade se revela.
Como uma fatalidade um dia a pergunta se desvela,
Sou um sujeito com projetos na vida,
Ou um projeto de sujeito?

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
DIRETOR GERAL

O Homem, este bicho em crise!

Dos originais “O apocalypse está vindo” - tomo I: O Homem, este bicho em crise!
Em tempos de banco de sêmen, para que serve o homem?
(afinal, para a perpetuação da espécie basta um homem!)

Aqui vai uma afirmação,
Um homem pode fecundar muito úteros.
E aqui vai uma constatação,
Isto não é prova de poder,
Mas prova de desimportância.
Qualquer um pode, não apenas eu.

Mas então querem aposentar o bilau?
Uau! Que coisa sem graça, que desgraça, que ameaça.
Não é nada disto, seu boçal.

O inferno é outro.
Se o horror da mulher é a solidão,
O horror do homem é a insuficiência (apenas não brochar é pouco, meu caro).
Mas enquanto a mulher fala, o homem disfarça,
E ingênuamente busca a resposta na ciência.

Enquanto a mulher tem inveja do pênis,
O homem teme o útero.
Enquanto a mulher gera vida e este tesouro ninguém pode lhe tomar,
O homem apodera-se do poder e oprime a mulher.
Mas quanta ilusão, o reprimido sempre retorna, e os fantasmas continuam a assombrar.

E neste impasse, onde não há passe de mágica, fica a questão.
O que querem então as mulheres? Que sejam escutadas!
O que os homens não querem? Que a história seja reescrita!

Mas um tempo acabou, a corda arrebentou, e a angústia aflorou.
Não se pode mais continuar a acreditar no que ninguém acredita mais.
Há uma mulher que sai da opressão,
E um homem que ainda insiste em possuir a mulher como um objeto de gozo.
Mas neste gozo há dor,
Não apenas da mulher ferida, mas também de um homem sem vida.
Em ereção, mas robotizado, automatizado, programado, um cyborgue.

Mas então, o homem está condenado à depressão?
Nada lhe resta senão insistir na ereção?
Claro que não, acorde mané, fazer junto é melhor que fazer sozinho.
Se cabe à mulher dar luz à vida,
Cabe ao homem introduzir a diferença dando nome à vida.
Pois não há vida onde um filho não se separa da mãe.
E se a função materna é desejar este filho, é função paterna dar-lhe um nome,
O que só é possível quando este deixa de ser, através do pai, um apêndice da mãe.
José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

“As filhas de Maria e as órfãs de José”

Da peça “O Martírio” - epílogo


Maria se esforça, e como se esforça,
para ser boa mãe.

Dedica-se a defender as filhas,
a protegê-las até do bicho papão.
Riem juntas, choram juntas,
mima, acalenta,
até faz pantomima.

Ao mesmo tempo lamenta
a triste sina das filhas de Maria,
lembrando-lhes sempre que são órfãs de José.

E as filhas de Maria, como um rebanho,
dizem em lamento “somos órfãs de José!”
E assim ficam a aguardar a volta de José,
a esperar uma atenção de José,
a desejar José.

Mas a orfandade é uma faca de dois gumes,
pois se para algumas filhas de Maria a orfandade
é uma condenação a aguardar José na companhia eterna de Maria,
para outras filhas de Maria a orfandade
é a chance de existir.

Existir por si,
falar por si,
pensar por si,
concluir por si.
Sem ser filha de Maria e órfã de José.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
DIRETOR GERAL
Maio de 2008

“As viúvas”

Do livro “Homenagens Póstumas”
Capítulo I: O Enterro Imaginário

Numa bela manhã a corte se reuniu,
E antes que fosse tarde demais, sentenciou um corte.
E uma cabeça rolou!

Alguém da nobreza?
Um plebeu?
Um Zebedeu?
Um Boticário?
Um Bedéu?
Um galã?
Um apresentador de TV?
Ou alguém que não se vê?

E a multidão alvoroçada quedou-se em estupor, entre murmúrios e até chororô.
E, como sempre, apareceram as “viúvas”.
De todo tipo e de todo lugar,
Umas de busto farto, outras nem tanto, apareceu até viúva barbada.
Sim, mulheres e homens, ambos “viúvas”.
Que roubada!

Todos a chorar, a lamentar e até a amaldiçoar.
Penalizadas, penalizados,
Com o que não sabem,
Com o que não querem saber.

E aí formou-se o cortejo fúnebre das “viúvas” do enforcado,
Onde alternavam seus lamentos com imprecações à corte arrogante,
Enquanto murmuravam: “enforcaram um santo homem”!

Mas não percebiam que não choravam pelo finado,
E nem pela própria viuvez,
Mas porque não tinham vez na corte onde queriam ter assento,
E com atrevimento,
Decretar que outra cabeça cortar.

José Luiz de Carvalho
Diretor - Geral
Dezembro.2007

“A visão do Rei e os interesses do Reino”

(Da série Dia de Encontros: “os seios de mamãe são meu trono”)

O que vê o Rei que reina, mas não governa?
O Reino?
Os bôbos da corte?
O que o espelho não lhe mostra?
Ou como sempre, apenas o próprio umbigo?

E assim é, como lhe parece.

Até que um dia a ralé invade o palácio,
E como trágico destino cortam-lhe o pescoço na guilhotina e invadem a dispensa real.

E o que vê aquele que governa, mas não reina, apesar de Rei?
Certamente os interesses do Reino!

E aqui as dificuldades começam,
Porque enxergar pelo Reino é muito diferente, e mais difícil, que enxergar para si.

Afinal o que interessa ao Reino é que o Rei enxergue por si o que está além de si,
O que exige um exercício dispendioso de considerar o Reino um lugar de todos,
Mas não de si primeiramente.

Entretanto, e que enfado insistir nisto,
O que cada um mais quer é ser Rei, mas não responsabilizar-se pelo Reino.
A cada dia, com tanta frequência, cada um se faz Rei,
Que reina em seus caprichos, devaneios e egoísmo.

Mas ao redor sempre há um Reino,
Seja a própria família, o local onde trabalha, a comunidade que habita ou a infância do filho, e outros mais.
E os interesses destes Reinos o Rei não pode ignorar,
Sob pena de um dia tombar penalizado.

Finalmente é bom lembrar que não é a coroa que faz um Rei, ou uma Rainha,
Nem tão sómente seu Reino contudo,
Mas o poder que um saber de enxergar pelo Reino lhe outorga.


26.Novembro.2007
José Luiz de Carvalho
DIRETOR GERAL
Psicólogo/Psicanalista

A mulher faz a diferença

Esta história que a mulher faz a diferença parece clichê, frase pronta, como um rojão
Que depois do efeito inicial, passa e some no ar

Prefiro acreditar que a mulher pode fazer diferente, ou mais, pode se fazer diferente
Diferente do que lhe foi imposto, ensinado, doutrinado
Convenceram a mulher a ser dentro de um mundo patriarcal
Onde o homem, por medo, convenceu a mulher a acreditar no que ela não é
E convenceu a mulher a acreditar no que êle não tem

E assim caminha a humanidade
Onde o homem ocupa uma suposta superioridade
A mulher uma suposta fragilidade
E todos nós acabamos numa insanidade

Soltemos um “pum” portanto, que nos acorde, que nos sacode no meio de tanta letargia
Soltemos um “pum” salutar
Um “pum” que não se perca no ar

Afinal, como dizia o mestre Freud, o que deseja uma mulher?
Afinal, o que querem as mulheres?
Continuar a esperar o homem? Ficar à sombra de um homem? Odiar os homens?
Ou, desejar ser um homem?

Se a cultura diz que o homem tem o que a mulher não tem, a falta é de todos
O ser humano que é incompleto, não a mulher
Entretanto a mulher é convencida a acreditar-se mutilada, incompleta, castrada
Eterna invejosa do que o homem tem
E depositária de uma culpa pelo que não tem

Mas que ledo engano, quanta fanfarronice masculina
E quanta ingenuidade feminina

A questão não é de inveja, de superioridade ou submissão, de sexo forte e sexo frágil
Isto são estórias do tempo de vovó
O que importa agora é rasgar a fantasia de Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida
O que importa agora é o desejo da mulher, não o desejo de mulher

O que a mulher não pode mais negar em si é a diferença que importa
Entre aquilo que o homem tem, e teme perder, e aquilo que cabe à mulher significar
Ou seja, o desejar e permitir ser desejada
Sem o que o homem não é nada
Mas, ferido de morte, vinga-se enclausurando a mulher no medo dele

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

A mesa de café sumiu

Onde está servido o (meu) café?
Não (me) serviram o café?

Que horror! Que absurdo!
Vamos descobrir o(s) culpado(s)
Vamos destronar o Tzar

Mas que espanto é este?
Café não é para ser servido
Café é para ser sorvido!
Apreciado, degustado, com deleite e com prazer

Num dia de encontros, por que tantos desencontros?

Num dia de encontros, o café faz parte do encontro
Em torno de uma mesa,
Com guloseimas, tentações, acepipes, fofocas, confidências, escuta,
reticências e outros regalos mais

Mas prazer não se encontra pronto
O que está pronto são os congelados
Sem graça, sem gosto, sem gesto

Prazer tem de ser gestado, cozido, tecido, elaborado
Exige trabalho, preparação, escolha, véspera e atitude!

Mas o que parece é que esperam
Uma mesa pronta, posta, como um passe de mágica.
Ninguém quer dar um passo

É uma pena,
Mas este café pronto num dia de encontros fica repetido, requentado
Sem perfume, sem afeto, sem sedução
Um desencanto, um desencontro

E como a APAE é um lugar de encontros
É melhor uma mesa vazia que perturba, que incomoda
Do que uma máquina automática de café!


José Luiz de Carvalho
DIRETOR GERAL

“A FADA MADRINHA E O MONSTRO CRUEL”

Da série “histórias para boi dormir”, e excelente sugestão para as férias, apresenta-se o livro “A FADA MADRINHA E O MONSTRO CRUEL”, capítulo I: “andando em círculos”.



Era uma vez um lugar tão distante que não se sabe onde fica.

E neste lugar havia uma gente aterrorizada e crédula, embora alguns nem tanto. Uns muito aterrorizados porque acreditavam que o bicho papão ia lhes papar, e muito crédulos porque esperavam que a fada madrinha fosse aparecer a tempo para lhes salvar.

E assim era porque lhes parecia, lhes convinha, lhes era cômodo.

Era um lugar tão monótono, tão em círculos, tão sem graça, que tudo se resumia ao bicho papão e a fada madrinha.

E aquela gente aterrorizada e crédula, embora alguns nem tanto, ficava vacilando entre o terror e a magia.

Onde parecia que o bicho papão, o monstro cruel, ia aparecer, aparecia a fada madrinha, e tudo continuava como se acostumara.

Mas aos poucos o encanto foi se desfazendo, pois se onde tem horror tem fascínio, onde tem proteção tem dependência, e assim, o bicho papão, o monstro cruel, virou balão e sumiu. E a fada madrinha?

Bem, a fada madrinha foi fazer tricô.

E aquela gente aterrorizada e crédula deste lugar distante?

Uns continuaram crédulos, aguardando o próximo susto que lhes tirasse da mediocridade e, quem sabe, uma nova fada madrinha. E uns outros, aqueles que nunca acreditaram muito em bicho papão e fada madrinha, bem, estes estão aprontando por aí.

Julho.2007

José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
DIRETOR GERAL

SOBRE TIAS E BRUXAS

O que é uma tia?
Ora, que pergunta
É o que a sobrinha ou o sobrinho tem
Simples, não?
Que ilusão!

Hoje, que pena, (quase) todo mundo é tia (ou tio)
Nem precisa ser parente

Céus, e ainda acham que é como um presente
Uma reverência, uma deferência
Que demência!

Parece que a indiferenciação,
A falta de nome,
Esta titulação
É como um trato de respeito, uma consideração, até uma distinção

É piada de mal-gosto?
Ou é caipirice mesmo?

Mas, tia, esta tia, não é identidade
É desqualificação
É não ser de verdade
É não ter alteridade
É não ter validade

Provinciana, diminuída, anódina,
Inodora, sem graça
Tia, titia, titica

Entretanto, e todavia, existem as bruxas
Ah, como são interessantes!
Cheias de sortilégios
Capazes de sacrilégios
São aquelas que mudam o mundo, que alteram a história

Singulares, inovadoras, corajosas, surpreendentes

E as feiticeiras?
Meu Deus, estas são as bruxas nobres
As especiais
As fundamentais
As guardiães do segredo da vida
Uma casta rara!

E você, o que tem feito de sua “vassoura”?


José Luiz de Carvalho
Junho/2007

Boneca de louça

Boneca tem sexo?
Acho que não
E nem nexo!

Então o que é?
Androginia?
Simulacro?
Feitiçaria?
Talismã?

Gente é que não é

Mas boneca há
E gente boneca também

Como uma máscara?
Para assustar, para seduzir, para se esconder?
Para existir?

Entretanto, como um devir, um dia o encanto se quebra
E a boneca de louça se parte
Em fragmentos, em momentos, em lamentos

E, aí, neste tormento,
A vida pode existir!



José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
Diretor-Geral

Abril/2007

BATERAM A PORTA NA MINHA CARA (parte I)

Bateram a porta na minha cara!
É uma metáfora?
É um fato?
Ou é um delírio?
Sinceramente, não sei.

Mas, é o que acredito, afirmo e insisto.
Bateram a porta na minha cara!

Aliás, depois desta, onde está minha cara?
Colada na porta?
Ou é a porta que ficou colada na minha cara?

Afinal, o que esta porta tem de tão importante?
Por que este horror?
Por que este fascínio?
Por que não consigo sair daí?
Que cola é esta que não me liberta?
Que porta é esta que não atravesso?

Que tormento, que tortura, que tontura!

Bateram a porta na minha cara!
Fiquei sem cara, fiquei sem porta.
E aí, perplexo, não tenho porta onde bater.

E, do outro lado, há alguém a me atender?



José Luiz de Carvalho
Novembro/2006

“A OVELHA DESGARRADA: a metáfora”

OVELHA?
E também DESGARRADA?
É demais!

Existe ovelha diferente? Ou são todas iguais?
Alguém consegue ver diferenças num bando de ovelhas?

E desgarrada? Porque perdeu a garra?

OVELHA DESGARRADA é ofensa?
Para mim ser chamado de ovelha é mais que ofensa, é insulto!
Ovelha desgarrada porque perdeu a garra, pior ainda.

Mas desgarrada porque diferenciou-se do bando é um bom sinal.
Um bom começo.

Ovelha em guerra com garra!
Aí eu topo.
Assim podem me nomear
Não me ofendo.





José Luiz de Carvalho
Diretor-Geral
Setembro de 2006

Me engole que eu gosto

Que me desculpe o poeta (Vinicius de Moraes),
mas beleza não é fundamental.
Nem a feiúra.
Fundamental é a diferença!

Porque sem o feio não há o belo,
e nem a possibilidade de se ter opinião.

O trágico não é a feiúra,
e tudo o mais que se exclui incluindo-se aí dentro,
mas a tragédia se inscreve no padrão de igualdade imposto.

Um padrão de beleza, de saúde, de estética, de desempenho,
que aceitamos alegremente, e muito ingenuamente.

Será que ninguém percebe que estamos ficando iguais?

Iguais não porque nos tornamos todos belos, inteligentes,
competentes, elegantes, cheirosos, mas iguais indiferenciados.

Clones? Múmias? Fantasmas?
Escolham.

Ou, muitos vivas à feiúra, que nos deixa vivos.

Altos, baixos, alegres, tristes, lentos, acelerados, belos, feios, deficientes, lúcidos, alienados, capazes, firmes, trôpegos, novos, velhos, etc,etc,etc, mas vivos, singulares, surpreendentes.

Cheios de vida, e não, cheios da vida.

Jose Luiz de Carvalho
Março 2006

Dia Internacional da Mulher

Estas datas comemorativas!
Dia do índio, da criança, do deficiente, do idoso, dos excluídos........e da mulher.
Ou seja, das minorias!
O que comemoram?

Não é a supremacia do homem,
mas do poder!
E quem está despossuído de poder,
recebe homenagens.

As minorias não são numéricas,
aliás formam populaçõe bem expressivas.
As minorias são os que foram desapropriados do próprio poder.
Reduzidos, calados, confinados, submetidos.

O que fazer?
Lamentar-se? Vingar-se? Resignar-se? Abdicar dos próprios direitos?
Aculturar-se?
Inverter a tirania? Passar de oprimido a opressor?
Assim fica tudo como está,
ou o poder apenas troca de mãos.

Particularmente para a mulher aponto um ponto.
Se para o homem a masculinidade está controversa,
para a mulher a questão está em sua feminilidade.

Feminilidade como condição feminina que constitui uma mulher,
em sua singularidade,
identidade,
poder,
fertilidade,
inteligência,
sexualidade,
cultura,
sensualidade,
e uma beleza que transcende o corpo.

Esta é minha homenagem às mulheres da APAE,
não pelo seu dia,
mas por sua feminilidade,
pelo que são capazes,
por seus mistérios,
porque podem gerar vida,
o que os homens tanto invejam e temem,
e que por isto as tem capturado!

O que eu desejo é que por sua feminilidade,
cada uma se faça livre.
José Luiz de Carvalho
Março.2006

Homenagem às mães

“Ser mãe é padecer no paraíso!”
Você acredita nisto?
Se acredita é uma pena,
porque uma recompensa tão pequena,
só pode ser lero-lero.


Acredito que desta maneira ser mãe é perecer no paraíso.
Afinal com ganho tão modesto,
o que lhe resta é apenas o resto.
Portanto, é hora de um bolero.


Proponho, portanto, que ser mãe seja aparecer no paraíso,
sensual, bonita e cheirosa,
porque maternidade não pode ser coisa margosa.
Então, que tal um dois para lá, dois para cá?


José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
Maio.2005

A Vida e a Morte

O nosso sossego.
Tão precioso e tão fugaz.

Não é a morte que nos rouba o sossego,
mas é a vida que o rouba de nós.

É no cotidiano, no inesperado, no impensável,
que a vida é perturbadora.

Porque é o tudo, e é o nada, um mesmo de dupla face.

Amaldiçoar a morte não redime a vida do que esta nos trai e nos atrai.




José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
Abril.2004

Eu (também) quero um PAI

Quero um Pai,
só para mim.

Mas que não seja
onipotente,
onipresente,
demente.

Enfim, que não seja carrasco.
Que asco.

Quero um Pai,
só para mim.

Que me proteja,
que me veja,
que me aqueça,
que me ofereça,
tudo o que desejo de meu Pai.
E que não se esqueça de mim.

Mas que ilusão
esta falta que esta falta me faz.
Pois o Pai que quero só para mim,
nem tão longe está assim.
Infelizmente está aqui, dentro de mim.



José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
Dez.2003

PROFESSOR

O que faz um professor?
É o seu fazer?
Ou basta sua formação?

O que faz um professor dentro da cena escolar, além de dar aulas?
O que pode ser revelado?
O que precisa ser mantido velado?

Fazer velado,
revelar o feito.
Há uma diferença!

É preciso, portanto, que se faça uma escolha!
Entre o que faz um professor,
e aqui jaz um professor!




José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
Dez.2001

O MELHOR DE SI

Para ter o melhor de si (e para nós mesmos, primeiramente), é necessário antes encontrar-se com o que há de pior dentro de nós mesmos, não para exibir em praça pública, o que causa assombro mas é apenas patético, e nem para guardar mais ainda o já escondido, o que seria um desperdício, mas para fazer dos demônios que nos habitam, mensageiros da ousadia.


José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
19.Nov.2001

O HERÓI DE MUITAS MÃOS

Era uma vez um sujeito (tanto pode ser um homem como uma mulher) que esqueceu-se que tinha apenas duas mãos.

E esquecendo-se deste detalhe tão importante, dispunha-se a fazer tanto, e ao mesmo tempo, que tornou-se um herói.

Para uns, um herói heróico,
para outros, um herói mártir,
e para si, um herói divino,
mas, como todo herói, sempre patético.

E assim era, como sempre parecia.

Mas quanto mais o herói fazia, mais tinha por fazer, e enquanto tanto fazia, mais os outros lhe deixavam para fazer.

Com o tempo, neste lugar absurdo havia um herói de muitas mãos que tudo fazia, e os outros que nada fazendo, esqueceram-se das próprias mãos.

Mas, afinal para que servem as mãos?

A gente deste lugar concluiu que as mãos servem ou para se tornar herói, ou não servem para nada.

O que é uma pena, porque é pouco, e perigoso, pois esta gente dividiu-se entre aqueles que perdiam as próprias mãos porque se transformavam em muitas, e aqueles que também perdiam as próprias mãos porque se desfaziam delas.

E a propósito, o que você tem feito com as suas?



José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
Março.2001

Mulheres (e homens também) à beira de um ataque de nervos

Equipes, gerências, reuniões, projetos, fim de caso, ocaso, novidades, decisão
eu morro de medo de transform(a)ção

Não, você não morre de medo,
você morre no medo
de estar são

E assim é,
como lhe parece
e o que parece, passa a ser

E o que faço?
Desfaço?
Dou um laço? Em volta de meu pescoço?

Aí está a interrogação,
sem resposta,
sem caminho,
sem uma mágica solução

Então soluço,
debruço,
no fundo de minha escuridão

Mas o outro, logo ele, me aponta
me conta,
que viver é transformar,
fazer diferente
com a mesma semente

Arriscar, riscar, ciscar

E aí, atenção
a tensão pode virar tesão.



José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
16.Maio.2000

Me provoca, que eu (não) gosto

Sexo?
Que história é esta?
O que eu tenho com isto?
Tudo!

O que eu tenho com isto tudo?
Muito!

Vamos mudar de assunto?
O que sinto, pressinto, eu minto.
Você também.
E tudo fica bem.

Mas, e se o outro me provoca,
evoca,
convoca.
O que faço?
A criança não mente,
o adolescente desmente,
fazem o adulto ficar demente.
E onde está a semente?

Sêmen é semente,
óvulo é um ovo,
de onde pode resultar algo novo.

Uma nova idéia,
uma nova palavra,
uma nova visão,
um novo caminho,
a minha posição!

Bonito, não? Mas,
cale a boca, senão eu grito!

José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
30.Novembro.99

Reflexões sobre o exercício profissional (e também sobre como supostamente se garante o próprio emprego)

O que é ser um bom profissional?
(e mais, ser um profissional necessário?)

A faxineira que faxina bem?
O médico que medica bem?
A professora que professora bem?
O motorista que dirige bem?
A coordenadora que coordena bem?
O terapeuta que atende bem?
A secretária que secretaria bem?
O diretor que dirige bem?

É pouco!
Antes era suficiente, hoje não!

O profissional competente no seu ofício, ordeiro, limpo, obediente, de preferência submisso, econômico, silencioso, pontual, feliz (pelo menos na aparência), era o ideal de qualquer gerente.
Mas o sonho acabou.

E o pesadelo não vai começar
Não para todos
Só para alguns

E o que hoje precisa um gerente?
De gente, inteligente
Independente, e
Interessante

O profissional de hoje precisa ter olhos, boca e escuta, e mãos, corpo, sentimentos, dúvidas, idéias,desejos e palavras,
principalmente as próprias

Para serem escutadas,
por todos os demais da mesma equipe, e
assim reconhecidas

E quem não quer ser reconhecido?

José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
09.Agosto.99

Comentário sobre uma festa memorável

Muitas são as festas em que o melhor delas acaba sendo a véspera.

Outras, nem isto.

Mas, algumas são especiais, memoráveis, deixam marca.

Assim, vejo a nossa festa de sábado, dia 26. Uma festa memorável, sem defeito, e de profundo efeito.

Uma festa onde o formal e o informal tiveram seu momento e lugar, a ordem e a descontração, o riso e a seriedade, os opostos se entenderam muito bem.

Esta é a grande lição que a festa nos traz, os opostos são possíveis, e necessários.

Somos sérios e divertidos, sóbrios e bêbados, corajosos e medrosos, mal-casados e bem amados, perfilados e dançarinos, espertos e ingênuos, somos um pouco de tudo isto. Que alívio!

Portanto, agradeço aqueles que organizaram a festa e aos que dela participaram, e estão todos convidados para a próxima. Principalmente os que ficaram de longe.

Que não a percam. Perder festa é perder vida.

Portanto, fica aqui uma sugestão. Não esperem que alguém, um certo alguém, marque e organize uma festa, em alguma data especial.

Festa não precisa de data.

É preciso apenas que alguém faça o convite.



José Luiz de Carvalho
APAE/Lavras
28.Junho.l999

O General Imaginário

Era uma vez um país muito curioso.

Apesar de ser dirigido pelo Governador, todos tinham medo era do General.
Só que, neste país, não havia General!

Mas, mesmo assim, havia o medo ao General, e diante disto acontecia algo muito estranho.

Uns mais medrosos acreditavam existir ali muito Generais, e assim viviam assustados, e submissos. Outros, também muito medrosos, agiam diferente, como se fossem um General, e ficavam a assustar os demais o tempo todo, vendo inimigos por todo o lado.

Assim, a gente medrosa neste país ficava dividida entre os que tinham medo do General, e aqueles que eram os Generais com medo.

E nesta situação de medo geral, todos queriam que o Governador arranjasse uma solução.

Mas, o Governador não tinha, e nem queria ter, uma solução!




José Luiz de Carvalho
APAE/LAVRAS
1996