(versão pornô do clássico “As pupilas do Senhor Reitor”)
Parte I (O abismo se aproxima)
No gabinete do Senhor Reitor havia um calendário bem posicionado na parede defronte da mesa onde ele despachava, e não era um calendário comum pois este somente marcava a passagem dos anos, não havia registro de dias e de meses. Ao Senhor Reitor só interessava o registro implacável da sucessão fria, metódica e impessoal dos anos, e ali ficava assinalado o peso da temporalidade que tanto assombra a homens e mulheres já chegados na meia idade.
Parte I (O abismo se aproxima)
No gabinete do Senhor Reitor havia um calendário bem posicionado na parede defronte da mesa onde ele despachava, e não era um calendário comum pois este somente marcava a passagem dos anos, não havia registro de dias e de meses. Ao Senhor Reitor só interessava o registro implacável da sucessão fria, metódica e impessoal dos anos, e ali ficava assinalado o peso da temporalidade que tanto assombra a homens e mulheres já chegados na meia idade.
Como num exercício cruel de um hábito sádico o Senhor Reitor nunca deixava de consultar o tal calendário, o que lhe despertava uma enorme angústia e, como não poderia deixar de ser, também um gozo negado, como uma dor temida , se evitada na palavra, era com sofreguidão procurada pelo olhar. E assim transcorriam os dias naquele gabinete quase lúgubre, onde o tempo não fluía como deve ser, mas marcava com seu compasso marcial a vida que lhe restava.
E afinal quem era o Senhor Reitor? A autoridade máxima de um venerável e centenário Liceu, ora veja, um Liceu, a esparramar-se num imenso campus em um país qualquer deste vasto mundo. É preciso dizer que se tratava de um homem íntegro, formal e muito cioso da liturgia do cargo e de sua biografia sem dúvidas nas linhas e sem mistérios nas entrelinhas.
O Senhor Reitor era um homem respeitado, sóbrio, cheio de formalidades, sempre no limite da acessibilidade e da distância respeitosa, sempre atento aos detalhes da etiqueta social, dos hábitos de sua condição social e, com rigor, nunca descuidando-se dos trajes que completavam a composição de sua imagem. Em síntese, sempre vestido com formalidade, com a pompa e a circunstância de um Senhor Reitor permanente, no público e no privado, no calor e no frio, a beira mar ou numa festa, em férias ou no trabalho, numa audiência ou na alcova, um mesmo o tempo todo. Por certo, quase uma múmia que transpirava.
Claro que as pessoas que o circundavam o viam ora sob o viés da admiração e respeito, mas também ora sob o viés da consternação e ironia, pois ali se cruzavam uma pose litúrgica e também uma pose patética. Caro leitor não se deixe enganar pelas aparências, pois o que se aparenta é apenas uma mensagem, um fragmento, o significante é o que escapa pelo absurdo. E neste pormenor aparentemente nada escapava ao Senhor Reitor, apenas o tempo, apesar da máscara de eternidade que sustentava.
Parte II (O Rei ficou nu)
E o que é o inesperado senão vicissitudes da vida?
Um dia o Senhor Reitor foi assaltado, roubaram-lhe a algibeira, sua bota gomeira e suas vestes sacerdotais, e assim tão constrangido, sem capa, sem coroa e sem cetro perdeu pompa, realeza e circunstância, ficando reduzido a um sujeito qualquer, um João ou um José.
A princípio naquela situação absurda e inominável só lhe restava a desonra e a vergonha eterna, era assim que se sentia, pensou em esconder-se na mata, sumir no mundo, desaparecer sem deixar vestígios, afinal perdera tudo, sem suas vestes fidagais, sem aquela pose toda, sobretudo sem sua armadura e sem sua máscara, o que restara do Senhor Reitor? E ele a pensar se indagava, o que restaura o Senhor Reitor?
E o que é um homem nu, muito mais do que pelado, e digo nu em todas as acepções do termo, pois assim ele estava, total e completamente nu, sem defesas, sem artifícios, sem estratagemas, sem posses e sem potência? E o que é um homem impotente senão um destituído daquilo que a cultura lhe confere como viril?
Não pense o caro leitor que nosso herói havia ficado com uma repentina disfunção erétil, não é este o caso, a coisa era muito mais grave, e além do mais nos dias de hoje a química farmacêutica vem apresentando um arsenal “levanta defunto” indiscutível, portanto vamos nos ater a algo mais importante, pois ele estava ferido na alma, era sua identidade, eram seus valores, tudo o que lhe importava ruíra, o calendário perdera seu significado na insignificância dele.
Parte III (Este sujeito é foda)
Como Narciso que um dia se viu refletido na água do lago, e deslumbrado com a própria beleza afundou-se na tentativa desesperada e insana de eternizar-se, nosso herói se viu refletido na água do lago, nu, ferido e decepcionado, e logo percebeu que tinha a seu alcance três caminhos a princípio, repetir este mito num acesso narcísico e afogar-se encerrando seu drama num dramalhão de quinta categoria, contentar-se com sua pequenez e passar a vida fugindo da depressão que certamente se tornaria sua companheira de jornada ou enxergar no refletido o que por si só não conseguir ver.
Corajosamente fez sua escolha pelo terceiro caminho, e não arrependeu-se.
O que a água do lago refletia para ele era que em seu narcisismo ferido havia um herói morto, um rei sem trono e um sábio contestado, ao mesmo tempo que ali podia renascer um novo homem, inscrever um outro nome e iniciar a escrita de uma nova estória, apesar da soma de anos que aquele calendário já lhe sentenciara.
Esquivando-se daquele famoso conto “O Rei está Nu” onde toda a plebe do reino não ousava ver a nudez do rei e assim, num delírio coletivo e numa cegueira de submissão, todos elogiavam a roupa invisível e inexistente do monarca absoluto, aquele sujeito levantou-se, agitou a água do lago dissipando a sedução do refletido, aprumou-se, reconheceu-se pelado, não mais nu, surpreendeu-se admitindo ter belas pernas e tomou o caminho contrário do Liceu.
E agora caro leitor? Garanto-lhe que não foi uma escolha indolor, o sujeito sofreu os diabos, enfrentou a ira divina, o dogma dos sábios e a certeza dos enviados, mas não desistiu. O que se sabe é que nunca mais voltou ao Liceu, aquele seu gabinete lúgubre tornou-se um túmulo vazio preenchido apenas por um calendário parado no tempo, e seus caminhos na vida a partir de então se tornaram um permanente interrogante e um incessante desejar.
José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista
Fevereiro de 2010