segunda-feira, 22 de agosto de 2011

APAE DE LAVRAS

SEMANA NACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL E MÚLTIPLA
De 21 a 28 de agosto

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais [APAE] de Lavras, em sua prestação de serviços de Atenção à Pessoa com Deficiência, desenvolve vários programas educacionais, de saúde e de segurança social, sendo que neste ano está comemorando os 25 anos de seu Programa de Educação em Parceria [PROEPAR], desenvolvido pela APAE de Lavras desde 1986 em parceria com escolas públicas de ensino regular e reconhecido nacionalmente pelo prêmio “ITAÚ-UNICEF de Educação e Participação” em 1995.

1- Mas o que é o PROEPAR?
É uma prática de Educação Especial em parceria com as escolas regulares do município de Lavras, como apoio especializado à escola de ensino comum.

2- Qual o seu objetivo?
Atender aqueles alunos e alunas considerados deficientes na escola onde estão matriculados, através de ações inclusivas dentro de sua turma escolar e etária, favorecendo sua inserção social, identidade subjetiva e aprendizagem.

3- Quais são suas ações?
São desenvolvidas ações sócio-pedagógicas inclusivas por meio de 03 (três) intervenções relacionais, redefinindo a responsabilidade e as possibilidades de cada um na construção coletiva do conhecimento:
Junto ao professor(a).
Junto a Equipe Pedagógica.
Junto aos pais.

Nesta mobilização triangular (escola-aluno-pais) tenta-se modificar, a tempo, a falsa idéia de que o fracasso é apenas do aluno, e que, portanto, é apenas nele que a questão está localizada, procurando-se então identificar os atravessamentos que dificultam a inclusão escolar e mobilizar os recursos favorecedores e o papel dos agentes responsáveis para uma mudança possível.


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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Trilogia Geográfica de um Casamento


1º tempo: Pós Lua de Mel
Fase Nova York para a maioria, para uns e outros Tokyo, Berlim ou Florianópolis
É o tempo hig-tech do casamento, alta tecnologia, alta voltagem e alta performance.

2º tempo: Intermezzo
Fase Curitiba, Orlando, e para piorar, fase Caxambu e Araxá para outros
É o tempo família do casamento, para o bem e para o mal.

3º tempo: Aposentados e Entediados
Fase Barra Mansa, Niterói ou Montevidéu, ou mesmo um “campo santo”, mas sempre um lugar sem-graça e onde não acontece nada
É o tempo “final dos tempos” do casamento que também pode ser o “salve-se quem puder”.

Upgrade: um tempo a mais para muito poucos
Fase Barcelona (sem comentários)
É o tempo “Fênix” do casamento, mas é preciso atravessar um Atlântico primeiro.



1º tempo: Pós Lua de Mel
Fase Nova York para a maioria, para uns e outros Tokyo, Berlim ou Florianópolis

É o tempo hig-tech do casamento, alta tecnologia, alta voltagem e alta performance. Os casais estão em transe, embora hoje em dia muitos nesta fase já estão em trânsito em busca de um advogado para tratar da separação. Mas o que prevalece é uma relação conjugal como uma das metrópoles citadas acima, surpreendentes, faiscantes, sem censura, performáticas, sedutoras e hedonistas.
É uma fase de excessos de desejo, de lascívia, de surpresas, a racionalidade cede lugar à pulsão mais primária, geralmente tudo vira festa e acaba na cama, que torna-se um lugar privilegiado para muitas danações, onde dormir é o que menos importa.
É bem verdade que para alguns casais o sonho do altar se desfaz no pesadelo do quarto conjugal, aquela tessitura de uma vida romântica a dois desmancha-se ao se colocar a chave na porta do que seria um lar-doce-lar, mas isto não é nem de longe a nuance principal desta fase.
Nesta pós-modernidade em que vivemos certos estereótipos do casamento já não se sustentam mais e o mais emblemático deles é que os recém-casados de hoje já trazem um test-drive prévio, portanto o que antes era um tempo onde o casal a cada esquina precisava consultar o mapa daquela terra desconhecida (a vida a dois), hoje os casais já trazem GPS atualizado, muita quilometragem rodada, e como corolário uma certa impaciência de antemão.
Mas convenhamos que é uma fase de extremos, de excessos e de exceções, sobretudo com boas lembranças e muitas fotos para virar assunto em almoços familiares aos domingos, ou ao contrário, um esquecimento total no caso do casamento iniciar e terminar quase ao mesmo tempo, é uma fase de apelidos supostamente carinhosos que funcionam como sinfonia de gatos no cio apenas para o casal em questão é claro, pois para os demais não dizem muita coisa.
Assim a vida conjugal se inicia e toma rumo sempre sob uma grande interrogação.

2º tempo: Intermezzo
Fase Curitiba, Orlando, e para piorar, fase Caxambu e Araxá para outros

É o tempo família do casamento, para o bem e para o mal. A rotina que já rondava se instala, as surpresas e os embalos de uma metrópole cedem lugar para uma vida ordeira, pacata e, muitas vezes, decepcionante, e então como uma solução mágica o casal resolve constituir família e aí vem o primeiro filho e em seguida os demais, e quando não vem é tempestade à vista na certa.
Saem de cena equivalências de metrópoles como Nova York e Tokyo, entra o programa família “unida e feliz” que fica bem no retrato e os melhores cenários para estas fotos são Curitiba, Araxá e similares, e para os mais abonados detestáveis viagens em grupo para Disney em Orlando e compras em Miami.
É aqui que a maioria dos casais sela o destino de seu casamento, já que existem muitas sendas por onde o casal pode trilhar sua vida a dois, aqui vai ser engendrado um casamento pacífico e morto no tédio, ou pacífico mas com sobrevida e, às vezes, até animado, ou um casamento esterilizado na religião, ou suportado pelas conveniências imorais e,ou financeiras e demais motivos inexplicáveis, ou, finalmente o pesadelo se torna um armagedon e tudo termina em traições, agressões, baixarias diversas e quiçá disputas no tribunal.
Mas na moral brasileira o que prevalece é a ordem e o progresso, e sob este viés os arranjos e acertos vão sendo feitos como uma trama vistosa ou remendos com mal aspecto, e com um código social mais elástico e arejado o que antes era uma prisão perpétua deixa de sê-lo com mais facilidade, a carta de alforria está mais acessível o que possibilita que a vida a dois deixe de ser um inferno “até que Deus os separe” .
Nesta fase o casal faz filho, faz patrimônio e faz planos, de viagens, de comprar apartamento na praia ou um sitiozinho nas redondezas, mas também há quem faz planos para matar o marido sem deixar pistas ou planos de como manter um harém na clandestinidade. Mas, fantasias criativas à parte, a primazia é da família, a mesma ou com neo-arranjos, e todos se dão por satisfeitos se os filhos crescem e aparecem.
Quanto a assuntos e ocorrências de alcova a estória fica mais para o acasalamento do que para a sacanagem, certas performances ficam por conta de datas especiais em motéis discretos sem que a vizinhança saiba.
Batizados, aniversários, formaturas, enfim, isto faz o casamento sair do leito conjugal e freqüentar outras cenas, o que é garantia de sobrevivência de muitos casais, mas também é uma boa maneira de se escrever e se inscrever o epitáfio de um casamento, portanto, neste intermezzo todo cuidado é pouco, é bom que os casais não se esqueçam de se olhar no espelho com regularidade e conferir se a imagem ainda faz filme de boa bilheteria.



3º tempo: Aposentados e Entediados
Fase Barra Mansa, Niterói ou Montevidéu, ou mesmo um “campo santo”, mas sempre um lugar sem-graça e onde não acontece nada

É o tempo “final dos tempos” do casamento que também pode ser o “salve-se quem puder”. Aqui a tragédia enunciada se instala de vez pois chegam a menopausa, a andropausa, e outras pausas a duras penas, o casal deixa de se olhar no espelho e um passa a olhar o outro com apreensão.
Os filhos geralmente já se foram, moram fora, telefonam as vezes e vem cada vez menos visitar os pais, ou, como fenômeno típico e contemporâneo desta já gasta pós-modernidade, alguns filhos continuam pendentes no bolso dos pais, mas só circulam nas proximidades em função da conta bancária dos pais, portanto, o casal retorna ao tempo pós Lua de Mel, mas sem o frenesi e a pulsação daqueles tempos. Ah, bons tempos, os casais que atravessaram uma vida juntos costumam dizer, e agora como antes, estão novamente a sós.
Para muitos é o juízo final, se recolhem em orações, expiações e obras de caridade, entretanto outros se acomodam no tédio e na desesperança, mas ainda assim existem outros que não entregam os pontos, não dependuram as chuteiras e nem guardam as sapatilhas, resolvem que vão continuar juntos mas cada vez mais singulares.
Infelizmente tudo aponta para a primazia da falta de graça, falta de ânimo, falta de desejo e falta de tesão, o que mais se escuta são queixas de casais que fazem a falta deixar de ser um desejante e tornar-se um lamento, e nada mais próprio do que a equivalência geográfica com as cidades de Niterói (pois a vida está do outro lado da baía), de Barra Mansa (veja o nome se não é para desanimar) ou mesmo Montevidéu (um imenso asilo à beira do estuário do Prata) e, no pior dos cenários, como um “campo santo” (sem mesuras, um cemitério mesmo).
Nesta fase o marido aposentado permanece em casa numa falta do que fazer que exaspera a esposa, isto mesmo caro leitor, na altura dos acontecimentos não é mais a mulher, é apenas a esposa. E esta, cansada da lida doméstica ou também já aposentada, gostaria mesmo de encher a casa de amigas todo dia para uma biriba sem o marido por perto para atrapalhar ou, como um desejo oculto e impronunciável, “encher a cara” também.
Melancólico, pois não? Lamentável, pois sim!
Mas isto não é fatalidade, felizmente a vida permite um upgrade, para poucos é bem verdade, mas não existem os escolhidos e privilegiados neste pormenor, este upgrade é democrático, acessível para os casais em geral, mas exige um ônus e se o terceiro é o ultimo tempo de muitos casamentos a partir daqui também pode começar uma prorrogação, resta ver que escolha será feita, se o destino inevitável do casamento é o desenlace que a vida impõe a todos ou se, antes desta solução final, há ainda um tempo de vida, de movida, de luz, câmera e ação.





Upgrade: um tempo a mais para muito poucos
Fase Barcelona (sem comentários)

É o tempo “Fênix” do casamento (que renasce das cinzas), mas é preciso atravessar um Atlântico primeiro, e para muitos casais esta travessia já está fora de cogitação, a relação a dois já se consolidou como um compasso de espera e acomodados “ficam a ver navios”, entretanto para muitos outros, e nisto a tecnologia de estética, saúde e novas concepções da “maior idade” (um arranjo semântico melhor do que “meia idade”) tem sido de inestimável valia e eficácia, a vida abre-se em perspectivas inusitadas e assim um casamento pode recuperar seu viço e sua mobilidade.
Caro leitor, como já disse para uns casais sua relação já foi consumida em cinzas faz tempo, já está tudo apagado, sem vida, sem calor e sem fogo, sobraram apenas implicâncias, insônia e ruídos noturnos, o dia-a-dia é uma sucessão de ressentimentos e gestos impacientes, mas curiosamente para outros esta relação moribunda se transforma em amizade e um esforço resignado de convivência e solidariedade, o que me parece ser a forma mais melancólica de um casamento ainda existir.
Ah, mas Barcelona existe, bem na Catalunha, na Espanha, na Península Ibérica, bem ali do outro lado do Atlântico, formosa, sensualíssima, vibrante, pulsante, paradoxal e sempre surpreendente.
Como a lenda da Fênix que ressurgiu das cinzas, Barcelona também ressurgiu e várias vezes, ferida mas não abatida, orgulhosa e cada vez mais cheia de vida, e é nesta equivalência geográfica que um casamento pode ressurgir, como uma Barcelona indomável.
Claro que o casal precisa ser corajoso e inovador, capaz de “levantar, sacudir a poeira e dar volta por cima”, de estar junto com satisfação, desejo e prazer, mas também capaz de suportar rompantes de raiva, ódio e paixão, por que não? Barcelona é uma cidade cosmopolita, por lá não se sabe o que é provincianismo, mediocridade e meio termo, o medieval convive com o Eixample, o tradicional com o fashion, a paixão com a razão, Gaudi com Dali, e como eterno amante a cidade tem o Mediterrâneo a lhe tocar sempre o corpo.
Pois é com a referência geográfica de Barcelona que esta trilogia tem um upgrade, o casamento não está fadado apenas a três tempos, como uma preparação da terra, uma semeadura e uma colheita, e nada mais. O casal, como nômades, pode alcançar um outro lugar, digamos um outro estilo de relacionamento, mais livre, sem compromissos familiares e outros constrangimentos, onde não é preciso mais arar, semear e colher, mas dedicar-se a prazeres, dizeres e fazeres que a idade não rouba, pois a vida ainda pulsa, pois o estar com o outro ainda desperta o desejar, e o estar juntos é como sair a dançar atrás da banda a tocar.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Fevereiro de 2011


O trono continua vazio, o assédio se acentua e as muralhas da fortaleza se fendem

Título mais edípico: “O Príncipe (ainda) não desmamou”

Prefácio, nada fácil (para facilitar no caso de algum editor decidir editar em livro):
1] o autor aborda nesta prosa metafórica uma questão masculina contemporânea, pós moderna e que, apesar de séria, beira o patético, pois o exercício peniano não pode dar conta, sozinho, da construção de um homem suficiente.
2] Mestre Freud indagava “o que querem as mulheres”, e o silêncio se instaurou, pois como autor desta prosa a seguir eu digo: elas querem acreditar nos homens.


O rei estava morto, mas não havia rei posto.
Havia uma rainha e um príncipe suposto herdeiro, a tríade havia se rompido, mas o trono continuava vazio, e o reino inteiro se indagava perplexo “o que será de nós sem um rei?” O que é um interrogante coletivo, mas que também exige algo no singular, e assim as pessoas se reuniam nas praças, no mercado e nas igrejas, mas também se indagavam a sós diante do espelho “o que será de mim sem um rei?”, e mais particularmente, os homens se perguntavam “o que será de mim se não me tornar um rei?”
Cabe esclarecer que neste reino “tornar-se um rei” era mais do que cingir-se de um status real, esta expressão tão popular na capital e nas províncias tinha adquirido na cultura do lugar, e em especial no imaginário masculino, uma significação simbólica de que “tornar-se um rei” equivalia a ser um guardião da lei e que a própria palavra seria depositária de suficiência, maturidade e confiança.
Neste ínterim, entre as exéquias reais e um trono vazio, um perigoso sentimento de orfandade se espalhava pelo reino, o que provocava murmúrios, desalento e revolta. É curioso pois o trono vazio não se resumia a uma questão palaciana, afinal o trono como emblema do poder real estava ali, o castelo não fora invadido e nem a corte enviada para a masmorra e a forca em seguida. Entretanto os signos do trono não eram suficientes frente os temores do abandono e da solidão, em síntese, não bastava o trono, era preciso um rei.
Mas não havia (ainda) um rei, e não apenas como ascenção de um príncipe suposto herdeiro, mas este jovem ainda no regaço da mãe não tinha (se) tornado um homem, refugiava-se na atemporalidade de uma adolescência tardia e permanente, resistia a se constituir um homem suficiente, embora o corpo já o denunciasse, e daí sem se tornar um homem não havia como ser ungido rei.
Caros leitores vale um lembrete, neste reino não se ungiam crianças como rei, havia um condição pétrea na lei, onde somente um homem suficiente poderia portar os signos de um rei, e como adendo à lei não se permitia neste reino patriarcal que as mulheres pudessem ter lugar na linhagem sucessória. Portanto, a questão era “quando o príncipe suposto herdeiro vai se tornar um rei?”
Ocorre que dentro das muralhas do castelo real havia um segredo, e como tal, era um segredo de estado e fechado a sete (mil) chaves, onde sómente a rainha, o principe suposto herdeiro e o Grão-Vizir, este como conselheiro real (o terceiro que rompe o absoluto), eram os guardiães do inominável. E o que seria, neste caso, algo inominável?

Naquela dinastia havia uma maldição que, periodicamente, assolava um dos varões da família, e por infortúnio do príncipe suposto herdeiro ele era um dos assinalados e sob este estigma o indizível instituiu sua primazia.
E como todo segredo este também provocou uma faina de suposições e afins na plebe da rua, nos prelados do santo ofício, nos dignitários, nas intrigas palacianas, na nobreza e na burguesia. Como uma onda que se infiltra nas entrelinhas, nas fendas e nos recônditos, os boatos, as fantasias mais delirantes e até as teorias mais estapafúrdias eram motivos de conversas ao pé-do-ouvido, em cochichos e aos brados, sobretudo dando-se ares de intimidade com o palácio real os que desfiavam as hipóteses mais críveis, ou seja, as mais aterrorizantes.
Ocorre que o terceiro ao quebrar o espelho que aprisiona uma relação especular introduz a palavra, rompe o indizível, faz emergir a angústia da cada um e torna possível sua elucidação temporária, e como a teoria sustenta foi o que ocorreu, o Grão-Vizir “deu nos dentes” e o segredo fragmentou-se para surpresa geral.
A maldição daquela linhagem real se manifestara e o príncipe suposto herdeiro apesar da fase púbere já vencida, de um corpo físico adulto já constituído e do garbo real, não apresentava cabelo no saco, isto mesmo, ele era “careca” na área genital, o que se não fosse apenas um despropósito também se tornava um impedimento ao reconhecimento público de que havia se tornado um homem com suficiência.
E aqui está, caro leitor, o impasse, um enigma digno de uma esfinge egípcia do tipo “decifra-me ou lhe devoro”, pois o príncipe suposto herdeiro já estava adentrado em idade aceita como de um adulto, há muito tempo já se deitara com sua primeira mulher, e muitas outras cortesãs já haviam lhe introduzido nas artes do erotismo e da sedução, nada daquilo que os homens acreditam ser suficiente para sua consistência viril lhe faltava, mas havia mesmo uma falta significada naquela alopécia tão fora de lugar, naquela falta de cabelo no saco havia inapelavelmente uma insuficiência.
Os sábios, os sacerdotes, os doutores, os professores e os magistrados foram convocados para tal empreitada, a saber, encontrar uma saída jurídica e institucional para se declarar pública e oficialmente o príncipe suposto herdeiro capaz para ser ungido rei, entretanto não conseguiram, aquela alopécia tão fora de lugar era visível, denunciadora e não seria uma nova jurisprudência, um implante capilar ou um decreto que faria existir cabelos onde nada se via, havia uma careca e ponto.
Claro que, como um contraponto, mais o príncipe suposto herdeiro se esforçava para aos olhos incrédulos dos outros afirmar sua potência peniana, sua aparente virilidade e a primazia patriarcal, o que resultava numa decepção coletiva, pois a alopécia estava ali como uma nudez que não se consegue esconder.
Caro leitor também vou lhe decepcionar pois esta estória não tem fim, a vacância deste trono não é um interrogante apenas para aquele reino, a alopécia deste príncipe suposto herdeiro nos aponta uma falta que nos acompanha por todo e sempre, como um aliado ou um adversário, a depender da significação que cada um fizer valer.
O que sei é que este príncipe suposto herdeiro armou-se para a guerra, vestiu-se com a armadura mais poderosa e foi ao encontro de seus inimigos imaginários para cegá-los todos, e assim num reino de cegos sua alopecia estaria invisível, o que revelou-se uma ilusão, pois a cada dia diante de um espelho infiel ele via o que ninguém mais conseguia ver mas que não deixavam de saber.

Foram muitas guerras em vão onde o que conquistava não eram novas fronteiras para seu reino, nem o trono e muito menos os cabelos que lhe faltavam, mas eram os olhos dos que enxergavam que aquele príncipe suposto herdeiro buscava como despojos de vitória. E no final de cada campanha aqueles olhos mortos lhe apontavam que a sua insuficiência permanecia.
Enlouquecido porque sua virilidade assassina, seu poder majestático e seu desejo real não lhe elucidavam o enigma, pois o absoluto lhe fugia, primeiro mandou quebrar todos os espelhos do reino e, em decorrência de mais este gesto insano e ilusório, num ato de impor seu desejo como uma lei arrancou os próprios olhos, e para que o toque não lhe denunciasse a alopécia, agora não mais vista, amputou as próprias mãos.
Agora cego e amputado deu-se por satisfeito, não mais fez guerra e nem ocupou o trono, não foi este seu destino, como não decifrou o enigma foi então engolido pela esfinge. O que se sabe é que o Grão-Vizir e os generais que não tiveram seus olhos arrancados arrastaram o príncipe suposto herdeiro, agora um condenado, para a masmorra do castelo e jogaram a chave fora, o que para o agora condenado não fazia a menor diferença pois em sua demência já não era um quase rei mas tornara-se algo muito maior e absoluto, muito acima das nuances da suficiência, pois já se tornara um deus.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Dezembro de 2010

Sobre Dívidas e Dúvidas, e Crises Existenciais


Pois bem, caro leitor, para início de conversa concordemos num ponto “não há crises existenciais”, mas há (e muitas) crises na existência, e não seria de outra maneira pois a existência se constitui de crises e intervalos, uns amenos e até prazeirosos e outros nem tanto, uns de tomar fôlego e outros de perdê-lo de vez, enfim assim é a existência humana, e seu caráter crítico pode trazer a primazia da quebra da monotonia ou o primado da melancolia.
Mas, mais além do que crises genéricas e, às vezes coletivas, há que se singularizar a existência, e nesta tentativa pode-se, a grosso modo, distinguir certos fantasmas que assombram de forma diferente os gêneros, ou melhor colocando, o que assombra as mulheres não é o mesmo que assombra os homens.
Numa sociedade ainda muito marcada pelo patriarcado, hoje muito sutilmente disfarçado em consumo, tecnologia e mídia, o que prevalece não é mais um suposto (que um dia foi muito explícito) poder masculino, mas um poder constituído pelo que é o falo da pós-modernidade, que está além das diferenças de gênero e da subjetividade. Entretanto os fantasmas que nos assombram, como seres viventes e pensantes, não se indiferenciaram tanto na pós-modernidade a ponto de suprimir certas diferenças entre um homem e uma mulher, e é sobre o que resta neste assombro diferenciado que este texto tenta apontar.
Dívidas e dúvidas não são significantes próprios de um gênero ou de outro, tanto homens como mulheres são atormentados, em graus variados, por ambos, mas a história humana tem mostrado uma diferença de prevalências que, se moldam muito as versões e atitudes de homens e de mulheres e ainda são fortes na constituição da subjetividade, não são marcos indeléveis, imutáveis e definitivos, e como a relatividade nos traz o conflito também nos agracia com a oportunidade. É neste ponto que o destino de cada um toma rumos singulares.
Há muito tempo que nas engrenagens ocultas do patriarcado engendra-se uma dinâmica onde a mulher vem sendo capturada pelo medo do homem, que assim impõe seu (suposto) poder, o que a história confirma em registros de horror, domínio, exploração e posse, e cabe aqui uma lembrança sinistra onde no período da Inquisição era a mulher a representação mais bem acabada de tramas diabólicas a serem destruídas ardendo na fogueira.
E é através de uma culpa atávica, uma dívida impagável e herdada por gerações, inoculada na subjetividade da mulher, que o poder masculino se impôs, e encontrando terra fértil no imaginário feminino conseguiu que uma culpabilidade sem crime se transformasse numa isca fácil para o domínio do homem. Mas que fertilidade é esta onde germina a vida e ao mesmo tempo engendra uma maldição? Mas é neste paradoxo onde pode-se encontrar o fio da meada de uma resposta, pois é gerando a vida que a dívida floresce, afinal não é separando-se do filho que a mãe permite que ele viva? Não é na renúncia de possuir o filho que a mãe permite que ele se aproprie da própria vida? E nesta perda primordial há a inscrição de uma suposta (e enganosa) dívida que o imaginário feminino ainda não conseguiu elucidar suficientemente, sobretudo porque é um estratagema perverso do patriarcado.



Mas como não se pode cunhar uma moeda de uma única face, e todo jogo de poder implica num eterno embate entre força e fraqueza, o homem não escapa de pagar seu tributo, e este insinua-se como uma dúvida a atormentar o homem em sua permanente necessidade de afirmação viril.
A cultura patriarcal exige uma constante, vistosa e explícita manifestação de poder, de preferência com pompa, circunstância e domínio, e o homem, pobre homem, fica ao sabor dos humores do momento e assim fica, sem saber, como estar garantindo-se, ou com uma colocação melhor, como estar equilibrando-se, sobre o fino fio que sustenta sua supremacia viril, sua identidade de macho dominante, daí uma permanente dúvida a lhe tirar o chão que pisa. A necessidade mandatária de afirmação traz, como uma dialética perversa, uma dúvida como contrapartida, e assim fica o homem a se esgueirar entre a fantasia de onipotência e o horror da impotência, como ônus do estratagema perverso do patriarcado.
Neste ponto, caro leitor, é natural que esteja com a cabeça em ebulição e prefira questões mais amenas, mas o fantasma que assombra a todos nós é impaciente, persistente e devorador, os sintomas da atualidade nos confirmam isto, sobretudo porque as inúmeras estratégias que existem hoje para iludir o fantasma são muito sedutoras e acessíveis, a busca de um gozo incessante, os psicofármacos, o consumismo, as adições, as relações superficiais, os descompromissos se tornaram substitutivos de uma realidade incômoda e postergada, mas são estratégias efêmeras e ilusórias, e como o reprimido sempre retorna o fantasma não elucidado não desiste, e mais cedo ou mais tarde, quando menos se espera, ele está ali a nos esperar.
Então o que nos cabe neste “mato sem cachorro”? Insistir na alienação, medir forças com o fantasma pela vida à fora? Mas, insisto, será uma luta inglória. Tudo o que a dívida e a dúvida veiculam para cada um de nós, tudo que significam como herança de uma cultura e singularidades de cada um precisam ser atualizados, mobilizados pela sublimação e ressignificados pela palavra para que daí possa haver mobilidade, sem o que estes significantes permanecerão como a masmorra onde a subjetividade vai fenecer a cada dia.



José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Maio de 2010

O Finado Coronel Jacinto




Morreu Seu Jacinto!
Esta notícia correndo de boca em boca por toda a cidade provocou um número tão grande de lamentações que, se reunidas em uníssono, seriam ouvidas por todo ser vivo, gente ou animal, em toda São Mateus do Belo Vale.
Na casa do falecido, homem estimado e Coronel de respeito na região, aliás, ele era um Peixoto de Lima e como tal um homem de bem, inegável herdeiro do sangue da família de homens de bem e de mulheres de oração, tudo era tristeza e dor.
A viúva, Da. Queridinha era toda prantos e choros, como se tudo isto fosse fazer de morto a vivo o seu finado marido. Da. Queridinha chorava auxiliada por duas sobrinhas que viviam junto dela, as duas, tanto Ofélia como Olinda, eram filhas de sua irmã mais velha que largando marido e filhas fora ser dançarina de teatro no Rio de Janeiro. Choravam juntas na capela do palacete dos Peixoto, o choro da viúva era tragicômico, longos acessos de convulsões ora intercalados por momentos de rigidez e profundos suspiros, o que provocava pronta reação das sobrinhas, pois estas vendo sua tia rígida sem choro, suspeitavam que a viúva tivesse se esquecido de prantear o marido, e então punham-se a chorar violentamente, soltando imprecações e blasfêmias como se tudo isto fosse estimular ainda mais o pranto de Da. Queridinha, o que de fato acontecia.
Em outros aposentos da casa ou mais precisamente em seus respectivos quartos choravam as três filhas de Seu Jacinto, ou melhor dizendo Coronel Jacinto.
Se caladas estas fontes de lamúrias e choros nenhum outro som que lembrasse enterro ou defunto fresco seria ouvido em toda casa, exceto o barulho que vinha da sala onde eram armados a mesa e o altar, onde seriam colocadas cadeiras, velas, genuflexórios e demais apetrechos próprios de uma grande noitada de velório.
As demais pessoas da casa não pareciam perturbadas demasiadamente a ponto de se desesperarem com a morte do Coronel. Eram as empregadas de forno e fogão, Lucila e Vicentina, de limpeza, Cleusa, e pessoas que mesmo não tendo muita importância contribuíam para o funcionamento da casa e o pronto atendimento dos caprichos de Da. Queridinha e seus protegidos.
Mas, dentre todos os lamentos e muxoxos, não se ouvia um que fosse de homem, não que não existissem homens vivos naquela casa, mas que a empregados homens, homens machos segundo o Coronel, não era permitido chorar, apenas suspiros profundos, mas que não fossem tremelicados, acompanhados com breves meneios da cabeça em sinal de consternação.
Mesmo que Da. Queridinha tivesse tido um filho homem, aliás esta foi a grande decepção do finado, que se nascido teria o nome de Gumercindo Jacinto Peixoto da Silva, a ele também não seria permitido o choro. Durante anos, mesmo depois de Da. Queridinha estar na menopausa e sem muito desejo, o Coronel ainda acreditava na vinda do filho varão que acabou não vindo, e como o Coronel fez força para isto.
Como aconteceu com as sobrinhas largadas tão sós no mundo, apenas com um pai desfeiteado e com roupinhas gastas, que foram adotadas por Da. Queridinha, esta quis adotar um menino, o Gildo ou mesmo Gildinho, menino filho de uma comadre que mesmo sendo afilhado do Coronel e portanto quase parente, este não quis adotar como filho o menino, que era macho e adorava matar passarinho a pedrada, pois como disse o Coronel à Da. Queridinha, que não se conformava em não ter o Gildinho a roçar-lhe os vestidos, que excetuando-se, com cuidados para não colocá-lo delicado e faceiro o filho não nascido por fim, não era dado a dengos com homens.
Enquanto toda a cidade de São Mateus do Belo Vale era sacudida e ainda não refeita do sacolejão, pela morte do glorioso, grande e protetor Coronel Jacinto Peixoto de Lima, ficava pronta a grande sala do palacete para o velório.
Segundo Nivaldo Garcia, jornalista do “Clarim” e advogado por profissão e diploma, toda a população da cidade provavelmente iria até o palacete dos Peixoto para respeitosamente apresentar seus pêsames à viúva e deixar ao finado um último suspiro, um último soluço mesmo que inaudível fosse.
Caso isto acontecesse e aconteceria, o velório do Coronel, este grande e inesquecível acontecimento, a derradeira homenagem dos vivos ao homem, agora morto, que sem dúvida alguma representava por tradição e merecimento toda a glória de São Mateus do Belo Vale, perderia todo o seu brilhantismo e pompa e tornar-se-ia, para usar um termo abundantemente usado pelo ilustre Nivaldo Garcia, uma concentração de raças, credos e tipos que em nada agradaria o Coronel, se vivo.
Urgia portanto preparar um velório, onde afastado o populacho que poderia prantear o Coronel em suas casas ou na calçada em frente ao palacete, estaria presente a fina flor de São Mateus do Belo Vale. Aí sim seria um grande acontecimento, um velório a altura do Coronel Jacinto Peixoto de Lima.
Com os olhos brilhando de contentamento e gozo, vislumbrando o grande acontecimento, sinal de que São Mateus do Belo Vale cria ares de metrópole também em seus grandes momentos, o Dr. Garcia discou o número do palacete dos Peixoto, o orgulho arquitetônico da cidade, a maior casa de toda a região, orgulho sempre ufanado pelos bairristas de São Mateus.
Sob a batuta e regência de Nivaldo Garcia iniciou-se as cerimônias fúnebres do Coronel, estando marcado para às 20:00 hs o início do velório. Este horário não fora marcado sem antes ser considerado que Da. Queridinha janta sempre às 19:30 hs e que jamais este horário seria desrespeitado ainda mais agora, em momento de tão grande provação e angústia.
Estavam presentes na grande sala, sem os quadros que ornamentavam suas paredes mas em seus lugares retratos do Coronel, as pessoas gradas de São Mateus do Belo Vale. Sentada ao lado do caixão, com um lenço molhado nas mãos, diga-se de passagem que também perfumado por suaves fragâncias, com os olhos úmidos estava Da. Queridinha. Ao seu lado estavam suas sobrinhas, enquanto do outro lado do caixão ficavam as três filhas do casal, Dorotéia, Dolores e Deolinda.
Ao abrir da porta principal, que estava defronte ao caixão, o vento que forçosamente entrava fazia tremeluzir as velas, agitava as cortinas das janelas, balançava as flores e despertava de sua letargia todas as pessoas presentes, pois neste momento estando a sala ainda vazia, as viúvas, filhas, sobrinhas e mesmo as visitas diante de tanta monotonia estavam a cochilar, talvez esperando momentos melhores para iniciar choros e lamentações.
Mas com o passar do tempo as pessoas iam chegando e iam sendo recebidas ora com profundos suspiros, ora com espasmódicas convulsões por parte das parentes do falecido que descansava em seu leito fúnebre, como se referiu ao caixão o Dr. Nivaldo Garcia, quando do discurso à beira do túmulo no dia seguinte.
Estando a noite bastante avançada a casa toda tomada pela sociedade de São Mateus, as rodinhas já formadas para comentar a vida do Coronel, tão bom, tão caridoso, que homem o Coronel!, e começaram a ser servidos os comes e bebes próprios de um velório distinto.
Enquanto degustavam os acepipes e gorgolejavam o licor, nunca bebido antes como todos diziam, deixavam aos cuidados de si próprio o finado Jacinto, ou melhor, Coronel Jacinto, que mesmo não tendo patente militar era considerado como tal, em sinal de respeito e reconhecimento de poder.
A sala ficara vazia pois a viúva resolveu dormir um pouco em seu quarto, as filhas passeavam em meio aos presentes, na esperança de recebendo novos pêsames encontrar algum pretendente, mas que não o fosse por interesse mas por amor. As sobrinhas desapareceram, talvez tivessem ido ao banheiro porque o faziam sempre juntas e quanto aos demais espalharam-se pela casa.
Um estranho que entrasse no palacete neste momento e não vendo o defunto a repousar em sua urna, tão inerme, tão branco, e fosse adentrando pela casa afora apostaria que ali se comemorava alguma coisa, talvez o aniversário de Da. Queridinha, talvez qualquer coisa menos que se realizava um velório distinto.
Tocados pelo vinho, satisfeitos pela cardápio próprio para um acontecimento destes em que se viam rosquinhas, pães de ló, pães de queijo, biscoitos, anjos e toda sorte de gostosuras, os presentes já contavam anedotas, riam às gargalhadas. O prefeito Dr. Geraldo de Almeida e senhora já ensaiavam alguns passos de dança, um fox-trote com jeito ao som da vitrola de Dorotéia, Dolores e Deolinda.
E assim foi até Da. Queridinha acordar de seu repouso. Amparada pelas duas sobrinhas Ofélia e Olinda a viúva apareceu aos presentes que, aproveitando a coleção de discos das filhas do finado conhecida como a mais completa de São Mateus, não se limitaram ao fox-trote ou marchinhas que adocicavam o coração dos ouvintes, mas já se ouviam sambas e estavam em animado arrasta-pés, sob a batuta entusiástica de Nivaldo Garcia.
Da. Queridinha estava sonolenta demais para se escandalizar ou talvez pela animação do ambiente tivesse, por um momento, se esquecido que estavam todos ali para um velório e não para um baile, mesmo porque o fato de estarem suas filhas Dorotéia, Dolores e Deolinda a dançar em ocasião de tamanha tristeza não parecia indicar que velavam um defunto.
E realmente as filhas do Coronel não pareciam órfãs tão recentes, razão pela qual as sobrinhas Ofélia e Olinda caíram em profundo e angustioso choro, o que fez lembrar à viúva a sua condição de viuvez e unindo seus lamentos aos das sobrinhas, formou-se um coro cujo recital era composto por peças desconhecidas e desafinadas.
Voltando todos ao recato e sobriedade próprios de um velório, não sei se devido ao fato da viúva iniciar novamente seus choros ou se devido ao passar do efeito das bebidas e das gostosuras próprias de uma grande noitada como esta, voltaram os presentes para a grande sala e o restante se espalhou pelos corredores do palacete, dedicando-se a elogiar e ao puxa-saquismos do finado Coronel, enquanto outros consolavam a viúva e bradavam orações ao pé do caixão.
A viúva já tinha se levantado de seu lugar várias vezes, ora para ir ao banheiro, ora para fazer gargurejos e bochechos pois uma gengivite decorrente do uso contínuo de sua dentadura gasta impedia-lhe a livre movimentação da boca.
Ao soar 03:00 hs da madrugada, enquanto saíam alguns presentes prometendo voltar para o enterro, uma chuva inicialmente fina e depois das mais grossas começou a cair. Como se a chuva fosse excelente antídoto contra o desinteresse, o desânimo e novamente o sono da viúva, esta ao ouvir o martelar das goteiras pôs-se a chorar um choro choroso e levantando-se abriu os braços, e como quem quer cair em cima de alguém virou-se para o falecido marido, e não sem antes soltar um ronco que gelou todos os adentros do corpo das sobrinhas Ofélia e Olinda parou, e enquanto esbugalhavam também os seus olhos Dorotéia, Dolores e Deolinda, as pessoas ainda presentes, e entre elas o Nivaldo Garcia, o Padre Lourival e a Divaneide de Souza, que era chamada pelo Coronel Jacinto de “beicinho de ouro”, alheias ao que acontecia pensavam que as parentas utilizavam um outro meio, talvez mais eficaz, de prantear o falecido.
Padre Lourival dirigiu-se para a cozinha com a desculpa de que iria providenciar um chá de ervas para a viúva, mas Da. Queridinha sabia muito bem que ele queria mesmo era outro trago de seu precioso licor, porque não havia quem em São Mateus do Belo Vale que não soubesse dos amores do reverendo pelas beberências, especialmente a branquinha, e muitos dos pecados da cidade foram perdoados pelo adocicado sabor de um legítimo “Madeira”.
Quanto ao restante dos presentes, todos já sabiam e não duvidavam disto, de que o falecido Coronel transpirava.
Em seu caixão com fru-frus de veludo o Coronel transpirava, suava em bicas de escorrer pela testa. Da. Queridinha ainda estava em êxtase e não havia quem se arriscasse a tirá-la deste estado letárgico, as sobrinhas oravam com redobrada devoção enquanto as filhas preocupavam-se com o suor do pai, talvez devido ao calor provocado pelo excesso de flores, veludos e babados que faziam as alegorias de um grande caixão, mas acontece que não conheciam defunto que suava e à idéia da falta de referência para suas conclusões as deixava suando.
O Dr. Nivaldo Garcia, assumindo posições e opiniões de homem de letras e profundo conhecedor dos mistérios da vida e da morte, cochichou ao ouvido de Divaneide de Souza, esperançosa na ressurreição do falecido amante, que já havia lido antes a respeito de defuntos vivos ou vivos defuntos, não sabia bem.
Odete “Coração de Jesus”, assim chamada pelo seu beatismo e dengos por santos, padres e sacristãos e toda sorte de tipos religiosos, acreditava na poderosa força da oração e rezava, agora de joelhos, para que o Coronel descansasse em paz sem o incômodo do suor.
A situação estava neste pé, entre dúvidas e assombros os presentes dividiam-se entre hipotéticos cochichos, enquanto que o Dr. Honorino de Freitas, médico e curandeiro, batia em retirada pois fora ele quem dera o atestado de óbito do Coronel.
Aos poucos todos iam batendo em retirada, respeitosamente e bem devagar com medo de que o finado, agora não se sabendo com certeza se finado, levantasse de seu leito fúnebre, para citar novamente Nivaldo Garcia, e entendendo que, como soldados em covardia fugindo do campo de batalha os ameaçasse de morte, se vivo, e de puxar-lhes as pernas à noite, se morto.
Também as filhas sumiram, Da. Queridinha e as sobrinhas, mas ao contrário da maioria dos presentes, agora ausentes, as parentas ficaram atrás da porta na expectativa de um grande momento.
A sala ficara vazia, entregue aos mosquitos e ao cheiro desagradável que ficava como última lembrança do Coronel para a posteridade. Em posição de destaque em meio aos dois candelabros e vasos de flores, que a esta hora já murchavam, defronte a um altar com o santo de devoção do finado de um lado e do outro o santo de devoção de preferência de Da. Queridinha, estava a grande mesa sobre a qual ficava o caixão do Coronel, que não se sabendo se por causa do calor, dos mosquitos ou pelo incômodo que os veludos e babados do caixão deviam estar causando, o defunto suava.
Da. Queridinha pelo que sabia da estória dos Peixoto de Lima não se lembrava de já ter ocorrido algo semelhante, porque os machos da família se orgulhavam de, quando morressem, estarem bem morridos, não sendo de bom feitio fazer feio como o papelão que o Coronel Jacinto estava fazendo.
Como se não bastasse nunca ter feito filho homem, o Coronel punha-se a suar em seu próprio velório. O que não iria pensar o velho Donizete Peixoto de Lima, bisavô e patriarca da família, que além de ter feito e deixado dezenove homens e também duas meninas, uma morta afogada e outra morta de dor de barriga, teve velório de três dias e comportamento de um defunto cujo sangue é Peixoto de Lima, pois durante todo o velório e enterro, com banda e foguetório, não se mexeu uma vez, não soltou sequer um gemido por menor que fosse.
Na esperança do grande momento, que poderia ser a ressurreição do Coronel ou um ronco definitivo e mortal, as parentas rezavam ou se deixavam ficar entregues a um terror que só as mulheres podem experimentar, segundo os machos.
Por esta hora o Padre Lourival vindo da cozinha entrou na sala, sem ter visto as parentas escondidas atrás da porta e sem ter nas mãos a xícara de chá que fora buscar para Da. Queridinha. Entrou na sala e neste momento Ofélia e Olinda urinaram-se toda, olhou para o defunto e olhando para os lados à procura de alguém, e como estava só com o finado Coronel que suava, enfiou a mão no bolso e de lá tirou um lenço, que já fora usado para muitas coisas menos para enxugar defunto que suava.
Enxuto o defunto Padre Lourival abençoou o finado e virando-se para os adentros da casa gritou: - Da. Queridinha venha ajudar antes que as goteiras empapem o finado Coronel.

*****

Este texto, encontrado recentemente ao acaso como uma relíquia esquecida, foi escrito por mim numa data desconhecida, não há registro algum a respeito, o que sei é que era apenas um adolescente e que gostava de escrever prosa sobre o cotidiano absurdo, fantástico e hilário de nós, pobres mortais.


José Luiz de Carvalho
Setembro de 2010





terça-feira, 31 de agosto de 2010

Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla ANO - 2010

Entrevista com o Diretor de Ações de Segurança Social da APAE de Lavras - MG – Prof. Alex Ribeiro Nunes

1- Que tipo de trabalho (s) a instituição realiza?
A APAE é um centro integrado de atenção à pessoa com deficiência intelectual, sendo uma organização não governamental, reconhecida como entidade beneficente de assistência social, que atua como parceira do poder público na prestação de serviços de ações educacionais, saúde e atenção sócio assistencial.

2- Que profissionais atuam na APAE?
A equipe conta com Professores, médicos, Fisioterapeutas, Psicólogos, Fonoaudiólogos, Assistente Social, Nutricionista, Psicopedagoga, Terapeutas ocupacionais, além da equipe administrativa.

3- Na área educacional, como funciona o trabalho da APAE?
A APAE de Lavras conta com uma equipe interdisciplinar que favorece o trabalho educacional através de seus programas.
- PROEI – Programa de Educação Infantil
- PROEF- Programa de Educação Fundamental
- PROET- Programa de Educação para o Trabalho
- PROEPAR- Programa de Educação em Parceria (apoio especializado à escola de ensino comum)
- PROASC – Programa de Ação Sócio-Cultural
Através destes programas, buscamos a inclusão social, escolar e no trabalho, da pessoa com deficiência intelectual.

4- Quanto aos boatos de extinção das APAEs , há veracidade? Qual a sua
opinião a respeito?
Hoje fala-se muito na questão da inclusão e existe todo um movimento a este respeito, o que talvez leve às pessoas a acreditarem nestes boatos, contudo, é importante ressaltar que a APAE é uma instituição complementar ao ensino regular e não substitutivo, e ainda, existem casos que a rede pública não tem condições de atender. A APAE é uma instituição que se firmou no apoio à deficiência e não há justificativa para sua extinção.

5- Como um dos diretores da APAE e professor, qual a sua opinião sobre inclusão?
Sou a favor da inclusão com responsabilidade, isso não significa colocar todos os alunos na escola comum, fazendo assim uma inclusão física. A inclusão escolar significa garantir não só o acesso, mas a permanência e o sucesso escolar também dos alunos com deficiência. Para isso, a escola tem de oferecer os suportes que o aluno vai precisar para que ele possa, de fato, estar incluído. Inclusão para mim é resultado de conscientização.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O STATUS DO PROFESSOR EM COLAPSO

Carta ao Professor
Por Marcelo Coelho
O Status do professor em colapso
Sempre tive horror de professores autoritários, e não sei por que razão, na minha época, os de Geografia eram os mais famosos neste quesito. Talvez tivessem algo de militar no raciocínio. Os de Educação Física e Matemática não ficavam muito atrás, e no colégio que frequentei a ideia de que estávamos numa instituição “de elite” era pretexto para incríveis atos de arbitrariedade.
Estávamos em 1972, e por alguma circunstância milagrosa ocorria uma eleição bastante disputada para o inútil grêmio de ginásio. Um colega, dos mais propensos a atrair minha antipatia (certa vez derramou uma garrafa de guaraná na minha cabeça), foi assistir à aula de Geografia usando uma faixa na testa, onde estava escrito o nome da chapa que apóia na eleição.
O professor de Geografia não precisou levantar-se da cadeira. Sua voz teria feito tremer um oficial do BOPE. “Arranca isso da testa”.Ele obedeceu como se aquela ordem fosse a coisa mais evidente do mundo. Talvez seja, mas tenho dúvida até hoje. A classe gelou em silêncio. Até hoje me arrependo de não ter perguntado, como cidadão, o que havia de errado em usar aquela faixa. Mas eu não tive coragem. Se fosse corajoso, aliás, não teria nunca recebido um despejo de guaraná na cabeça.
Sucediam-se, a cenas como essa, os mesmos discursos em torno da excelência de nosso colégio, que estava formando “a elite” do País. Uma elite questionadora e crítica, sem dúvida nenhuma, desde que deixasse seus questionamentos e críticas fora da sala de aula de Geografia.
Digo tudo isso para frisar que tenho repugnância e desdém pelos professores que são tirados em sala de aula. Poucas profissões, aliás, garantem a quem as exerce uma situação de poder desde o primeiro dia de trabalho. Todo professor pode contabilizar, entretanto, esse invejável adicional simbólico aos modestos salários que recebe.
Pode? Será que ainda pode? Recentemente fiquei sabendo de um projeto de lei em curso na Assembléia Legislativa de São Paulo, que proíbe oficialmente o uso de celulares em sala de aula. Não sei de exemplo mais claro do colapso da autoridade inerente ao cargo de professor.
Se um professor não consegue impedir sozinho o uso de celulares, i-pods ou coisa que o valha (armas de fogo, seringas injetáveis?) durante a sua aula, sendo necessário, para isso, a legitimidade da lei e a força de um aparato policial para garanti-la, isso é sinal de que seu status tornou-se equivalente ao de um porteiro franzino numa boate frequentada por Al Capone.
Não faltam exemplos - quem trabalha na rede pública ou na particular sabe melhor que eu – de professores espancados e ameaçados de morte pelos alunos, quando não intimidados pelos pais de alunos ou pelos traficantes que dominam o local.
Nunca pensei que o meu velho professor de Geografia fizesse falta em escola nenhuma. Mas se autoritarismo e educação não combinam, não vejo como haver educação sem um mínimo de respeito à autoridade. Tenho até hoje pesadelos com aquele tirano do ginásio. Mas espero estar sendo verdadeiro ao dizer que não gostaria de vê-lo sob a mira de um revólver. Seria até capaz, nesse caso, de usar o celular para chamar a polícia. Mas não sei se isso adiantaria alguma coisa.