Morreu Seu Jacinto!
Esta notícia correndo de boca em boca por toda a cidade provocou um número tão grande de lamentações que, se reunidas em uníssono, seriam ouvidas por todo ser vivo, gente ou animal, em toda São Mateus do Belo Vale.
Na casa do falecido, homem estimado e Coronel de respeito na região, aliás, ele era um Peixoto de Lima e como tal um homem de bem, inegável herdeiro do sangue da família de homens de bem e de mulheres de oração, tudo era tristeza e dor.
A viúva, Da. Queridinha era toda prantos e choros, como se tudo isto fosse fazer de morto a vivo o seu finado marido. Da. Queridinha chorava auxiliada por duas sobrinhas que viviam junto dela, as duas, tanto Ofélia como Olinda, eram filhas de sua irmã mais velha que largando marido e filhas fora ser dançarina de teatro no Rio de Janeiro. Choravam juntas na capela do palacete dos Peixoto, o choro da viúva era tragicômico, longos acessos de convulsões ora intercalados por momentos de rigidez e profundos suspiros, o que provocava pronta reação das sobrinhas, pois estas vendo sua tia rígida sem choro, suspeitavam que a viúva tivesse se esquecido de prantear o marido, e então punham-se a chorar violentamente, soltando imprecações e blasfêmias como se tudo isto fosse estimular ainda mais o pranto de Da. Queridinha, o que de fato acontecia.
Em outros aposentos da casa ou mais precisamente em seus respectivos quartos choravam as três filhas de Seu Jacinto, ou melhor dizendo Coronel Jacinto.
Se caladas estas fontes de lamúrias e choros nenhum outro som que lembrasse enterro ou defunto fresco seria ouvido em toda casa, exceto o barulho que vinha da sala onde eram armados a mesa e o altar, onde seriam colocadas cadeiras, velas, genuflexórios e demais apetrechos próprios de uma grande noitada de velório.
As demais pessoas da casa não pareciam perturbadas demasiadamente a ponto de se desesperarem com a morte do Coronel. Eram as empregadas de forno e fogão, Lucila e Vicentina, de limpeza, Cleusa, e pessoas que mesmo não tendo muita importância contribuíam para o funcionamento da casa e o pronto atendimento dos caprichos de Da. Queridinha e seus protegidos.
Mas, dentre todos os lamentos e muxoxos, não se ouvia um que fosse de homem, não que não existissem homens vivos naquela casa, mas que a empregados homens, homens machos segundo o Coronel, não era permitido chorar, apenas suspiros profundos, mas que não fossem tremelicados, acompanhados com breves meneios da cabeça em sinal de consternação.
Mesmo que Da. Queridinha tivesse tido um filho homem, aliás esta foi a grande decepção do finado, que se nascido teria o nome de Gumercindo Jacinto Peixoto da Silva, a ele também não seria permitido o choro. Durante anos, mesmo depois de Da. Queridinha estar na menopausa e sem muito desejo, o Coronel ainda acreditava na vinda do filho varão que acabou não vindo, e como o Coronel fez força para isto.
Como aconteceu com as sobrinhas largadas tão sós no mundo, apenas com um pai desfeiteado e com roupinhas gastas, que foram adotadas por Da. Queridinha, esta quis adotar um menino, o Gildo ou mesmo Gildinho, menino filho de uma comadre que mesmo sendo afilhado do Coronel e portanto quase parente, este não quis adotar como filho o menino, que era macho e adorava matar passarinho a pedrada, pois como disse o Coronel à Da. Queridinha, que não se conformava em não ter o Gildinho a roçar-lhe os vestidos, que excetuando-se, com cuidados para não colocá-lo delicado e faceiro o filho não nascido por fim, não era dado a dengos com homens.
Enquanto toda a cidade de São Mateus do Belo Vale era sacudida e ainda não refeita do sacolejão, pela morte do glorioso, grande e protetor Coronel Jacinto Peixoto de Lima, ficava pronta a grande sala do palacete para o velório.
Segundo Nivaldo Garcia, jornalista do “Clarim” e advogado por profissão e diploma, toda a população da cidade provavelmente iria até o palacete dos Peixoto para respeitosamente apresentar seus pêsames à viúva e deixar ao finado um último suspiro, um último soluço mesmo que inaudível fosse.
Caso isto acontecesse e aconteceria, o velório do Coronel, este grande e inesquecível acontecimento, a derradeira homenagem dos vivos ao homem, agora morto, que sem dúvida alguma representava por tradição e merecimento toda a glória de São Mateus do Belo Vale, perderia todo o seu brilhantismo e pompa e tornar-se-ia, para usar um termo abundantemente usado pelo ilustre Nivaldo Garcia, uma concentração de raças, credos e tipos que em nada agradaria o Coronel, se vivo.
Urgia portanto preparar um velório, onde afastado o populacho que poderia prantear o Coronel em suas casas ou na calçada em frente ao palacete, estaria presente a fina flor de São Mateus do Belo Vale. Aí sim seria um grande acontecimento, um velório a altura do Coronel Jacinto Peixoto de Lima.
Com os olhos brilhando de contentamento e gozo, vislumbrando o grande acontecimento, sinal de que São Mateus do Belo Vale cria ares de metrópole também em seus grandes momentos, o Dr. Garcia discou o número do palacete dos Peixoto, o orgulho arquitetônico da cidade, a maior casa de toda a região, orgulho sempre ufanado pelos bairristas de São Mateus.
Sob a batuta e regência de Nivaldo Garcia iniciou-se as cerimônias fúnebres do Coronel, estando marcado para às 20:00 hs o início do velório. Este horário não fora marcado sem antes ser considerado que Da. Queridinha janta sempre às 19:30 hs e que jamais este horário seria desrespeitado ainda mais agora, em momento de tão grande provação e angústia.
Estavam presentes na grande sala, sem os quadros que ornamentavam suas paredes mas em seus lugares retratos do Coronel, as pessoas gradas de São Mateus do Belo Vale. Sentada ao lado do caixão, com um lenço molhado nas mãos, diga-se de passagem que também perfumado por suaves fragâncias, com os olhos úmidos estava Da. Queridinha. Ao seu lado estavam suas sobrinhas, enquanto do outro lado do caixão ficavam as três filhas do casal, Dorotéia, Dolores e Deolinda.
Ao abrir da porta principal, que estava defronte ao caixão, o vento que forçosamente entrava fazia tremeluzir as velas, agitava as cortinas das janelas, balançava as flores e despertava de sua letargia todas as pessoas presentes, pois neste momento estando a sala ainda vazia, as viúvas, filhas, sobrinhas e mesmo as visitas diante de tanta monotonia estavam a cochilar, talvez esperando momentos melhores para iniciar choros e lamentações.
Mas com o passar do tempo as pessoas iam chegando e iam sendo recebidas ora com profundos suspiros, ora com espasmódicas convulsões por parte das parentes do falecido que descansava em seu leito fúnebre, como se referiu ao caixão o Dr. Nivaldo Garcia, quando do discurso à beira do túmulo no dia seguinte.
Estando a noite bastante avançada a casa toda tomada pela sociedade de São Mateus, as rodinhas já formadas para comentar a vida do Coronel, tão bom, tão caridoso, que homem o Coronel!, e começaram a ser servidos os comes e bebes próprios de um velório distinto.
Enquanto degustavam os acepipes e gorgolejavam o licor, nunca bebido antes como todos diziam, deixavam aos cuidados de si próprio o finado Jacinto, ou melhor, Coronel Jacinto, que mesmo não tendo patente militar era considerado como tal, em sinal de respeito e reconhecimento de poder.
A sala ficara vazia pois a viúva resolveu dormir um pouco em seu quarto, as filhas passeavam em meio aos presentes, na esperança de recebendo novos pêsames encontrar algum pretendente, mas que não o fosse por interesse mas por amor. As sobrinhas desapareceram, talvez tivessem ido ao banheiro porque o faziam sempre juntas e quanto aos demais espalharam-se pela casa.
Um estranho que entrasse no palacete neste momento e não vendo o defunto a repousar em sua urna, tão inerme, tão branco, e fosse adentrando pela casa afora apostaria que ali se comemorava alguma coisa, talvez o aniversário de Da. Queridinha, talvez qualquer coisa menos que se realizava um velório distinto.
Tocados pelo vinho, satisfeitos pela cardápio próprio para um acontecimento destes em que se viam rosquinhas, pães de ló, pães de queijo, biscoitos, anjos e toda sorte de gostosuras, os presentes já contavam anedotas, riam às gargalhadas. O prefeito Dr. Geraldo de Almeida e senhora já ensaiavam alguns passos de dança, um fox-trote com jeito ao som da vitrola de Dorotéia, Dolores e Deolinda.
E assim foi até Da. Queridinha acordar de seu repouso. Amparada pelas duas sobrinhas Ofélia e Olinda a viúva apareceu aos presentes que, aproveitando a coleção de discos das filhas do finado conhecida como a mais completa de São Mateus, não se limitaram ao fox-trote ou marchinhas que adocicavam o coração dos ouvintes, mas já se ouviam sambas e estavam em animado arrasta-pés, sob a batuta entusiástica de Nivaldo Garcia.
Da. Queridinha estava sonolenta demais para se escandalizar ou talvez pela animação do ambiente tivesse, por um momento, se esquecido que estavam todos ali para um velório e não para um baile, mesmo porque o fato de estarem suas filhas Dorotéia, Dolores e Deolinda a dançar em ocasião de tamanha tristeza não parecia indicar que velavam um defunto.
E realmente as filhas do Coronel não pareciam órfãs tão recentes, razão pela qual as sobrinhas Ofélia e Olinda caíram em profundo e angustioso choro, o que fez lembrar à viúva a sua condição de viuvez e unindo seus lamentos aos das sobrinhas, formou-se um coro cujo recital era composto por peças desconhecidas e desafinadas.
Voltando todos ao recato e sobriedade próprios de um velório, não sei se devido ao fato da viúva iniciar novamente seus choros ou se devido ao passar do efeito das bebidas e das gostosuras próprias de uma grande noitada como esta, voltaram os presentes para a grande sala e o restante se espalhou pelos corredores do palacete, dedicando-se a elogiar e ao puxa-saquismos do finado Coronel, enquanto outros consolavam a viúva e bradavam orações ao pé do caixão.
A viúva já tinha se levantado de seu lugar várias vezes, ora para ir ao banheiro, ora para fazer gargurejos e bochechos pois uma gengivite decorrente do uso contínuo de sua dentadura gasta impedia-lhe a livre movimentação da boca.
Ao soar 03:00 hs da madrugada, enquanto saíam alguns presentes prometendo voltar para o enterro, uma chuva inicialmente fina e depois das mais grossas começou a cair. Como se a chuva fosse excelente antídoto contra o desinteresse, o desânimo e novamente o sono da viúva, esta ao ouvir o martelar das goteiras pôs-se a chorar um choro choroso e levantando-se abriu os braços, e como quem quer cair em cima de alguém virou-se para o falecido marido, e não sem antes soltar um ronco que gelou todos os adentros do corpo das sobrinhas Ofélia e Olinda parou, e enquanto esbugalhavam também os seus olhos Dorotéia, Dolores e Deolinda, as pessoas ainda presentes, e entre elas o Nivaldo Garcia, o Padre Lourival e a Divaneide de Souza, que era chamada pelo Coronel Jacinto de “beicinho de ouro”, alheias ao que acontecia pensavam que as parentas utilizavam um outro meio, talvez mais eficaz, de prantear o falecido.
Padre Lourival dirigiu-se para a cozinha com a desculpa de que iria providenciar um chá de ervas para a viúva, mas Da. Queridinha sabia muito bem que ele queria mesmo era outro trago de seu precioso licor, porque não havia quem em São Mateus do Belo Vale que não soubesse dos amores do reverendo pelas beberências, especialmente a branquinha, e muitos dos pecados da cidade foram perdoados pelo adocicado sabor de um legítimo “Madeira”.
Quanto ao restante dos presentes, todos já sabiam e não duvidavam disto, de que o falecido Coronel transpirava.
Em seu caixão com fru-frus de veludo o Coronel transpirava, suava em bicas de escorrer pela testa. Da. Queridinha ainda estava em êxtase e não havia quem se arriscasse a tirá-la deste estado letárgico, as sobrinhas oravam com redobrada devoção enquanto as filhas preocupavam-se com o suor do pai, talvez devido ao calor provocado pelo excesso de flores, veludos e babados que faziam as alegorias de um grande caixão, mas acontece que não conheciam defunto que suava e à idéia da falta de referência para suas conclusões as deixava suando.
O Dr. Nivaldo Garcia, assumindo posições e opiniões de homem de letras e profundo conhecedor dos mistérios da vida e da morte, cochichou ao ouvido de Divaneide de Souza, esperançosa na ressurreição do falecido amante, que já havia lido antes a respeito de defuntos vivos ou vivos defuntos, não sabia bem.
Odete “Coração de Jesus”, assim chamada pelo seu beatismo e dengos por santos, padres e sacristãos e toda sorte de tipos religiosos, acreditava na poderosa força da oração e rezava, agora de joelhos, para que o Coronel descansasse em paz sem o incômodo do suor.
A situação estava neste pé, entre dúvidas e assombros os presentes dividiam-se entre hipotéticos cochichos, enquanto que o Dr. Honorino de Freitas, médico e curandeiro, batia em retirada pois fora ele quem dera o atestado de óbito do Coronel.
Aos poucos todos iam batendo em retirada, respeitosamente e bem devagar com medo de que o finado, agora não se sabendo com certeza se finado, levantasse de seu leito fúnebre, para citar novamente Nivaldo Garcia, e entendendo que, como soldados em covardia fugindo do campo de batalha os ameaçasse de morte, se vivo, e de puxar-lhes as pernas à noite, se morto.
Também as filhas sumiram, Da. Queridinha e as sobrinhas, mas ao contrário da maioria dos presentes, agora ausentes, as parentas ficaram atrás da porta na expectativa de um grande momento.
A sala ficara vazia, entregue aos mosquitos e ao cheiro desagradável que ficava como última lembrança do Coronel para a posteridade. Em posição de destaque em meio aos dois candelabros e vasos de flores, que a esta hora já murchavam, defronte a um altar com o santo de devoção do finado de um lado e do outro o santo de devoção de preferência de Da. Queridinha, estava a grande mesa sobre a qual ficava o caixão do Coronel, que não se sabendo se por causa do calor, dos mosquitos ou pelo incômodo que os veludos e babados do caixão deviam estar causando, o defunto suava.
Da. Queridinha pelo que sabia da estória dos Peixoto de Lima não se lembrava de já ter ocorrido algo semelhante, porque os machos da família se orgulhavam de, quando morressem, estarem bem morridos, não sendo de bom feitio fazer feio como o papelão que o Coronel Jacinto estava fazendo.
Como se não bastasse nunca ter feito filho homem, o Coronel punha-se a suar em seu próprio velório. O que não iria pensar o velho Donizete Peixoto de Lima, bisavô e patriarca da família, que além de ter feito e deixado dezenove homens e também duas meninas, uma morta afogada e outra morta de dor de barriga, teve velório de três dias e comportamento de um defunto cujo sangue é Peixoto de Lima, pois durante todo o velório e enterro, com banda e foguetório, não se mexeu uma vez, não soltou sequer um gemido por menor que fosse.
Na esperança do grande momento, que poderia ser a ressurreição do Coronel ou um ronco definitivo e mortal, as parentas rezavam ou se deixavam ficar entregues a um terror que só as mulheres podem experimentar, segundo os machos.
Por esta hora o Padre Lourival vindo da cozinha entrou na sala, sem ter visto as parentas escondidas atrás da porta e sem ter nas mãos a xícara de chá que fora buscar para Da. Queridinha. Entrou na sala e neste momento Ofélia e Olinda urinaram-se toda, olhou para o defunto e olhando para os lados à procura de alguém, e como estava só com o finado Coronel que suava, enfiou a mão no bolso e de lá tirou um lenço, que já fora usado para muitas coisas menos para enxugar defunto que suava.
Enxuto o defunto Padre Lourival abençoou o finado e virando-se para os adentros da casa gritou: - Da. Queridinha venha ajudar antes que as goteiras empapem o finado Coronel.
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Este texto, encontrado recentemente ao acaso como uma relíquia esquecida, foi escrito por mim numa data desconhecida, não há registro algum a respeito, o que sei é que era apenas um adolescente e que gostava de escrever prosa sobre o cotidiano absurdo, fantástico e hilário de nós, pobres mortais.
José Luiz de Carvalho
Setembro de 2010