sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O trono continua vazio, o assédio se acentua e as muralhas da fortaleza se fendem

Título mais edípico: “O Príncipe (ainda) não desmamou”

Prefácio, nada fácil (para facilitar no caso de algum editor decidir editar em livro):
1] o autor aborda nesta prosa metafórica uma questão masculina contemporânea, pós moderna e que, apesar de séria, beira o patético, pois o exercício peniano não pode dar conta, sozinho, da construção de um homem suficiente.
2] Mestre Freud indagava “o que querem as mulheres”, e o silêncio se instaurou, pois como autor desta prosa a seguir eu digo: elas querem acreditar nos homens.


O rei estava morto, mas não havia rei posto.
Havia uma rainha e um príncipe suposto herdeiro, a tríade havia se rompido, mas o trono continuava vazio, e o reino inteiro se indagava perplexo “o que será de nós sem um rei?” O que é um interrogante coletivo, mas que também exige algo no singular, e assim as pessoas se reuniam nas praças, no mercado e nas igrejas, mas também se indagavam a sós diante do espelho “o que será de mim sem um rei?”, e mais particularmente, os homens se perguntavam “o que será de mim se não me tornar um rei?”
Cabe esclarecer que neste reino “tornar-se um rei” era mais do que cingir-se de um status real, esta expressão tão popular na capital e nas províncias tinha adquirido na cultura do lugar, e em especial no imaginário masculino, uma significação simbólica de que “tornar-se um rei” equivalia a ser um guardião da lei e que a própria palavra seria depositária de suficiência, maturidade e confiança.
Neste ínterim, entre as exéquias reais e um trono vazio, um perigoso sentimento de orfandade se espalhava pelo reino, o que provocava murmúrios, desalento e revolta. É curioso pois o trono vazio não se resumia a uma questão palaciana, afinal o trono como emblema do poder real estava ali, o castelo não fora invadido e nem a corte enviada para a masmorra e a forca em seguida. Entretanto os signos do trono não eram suficientes frente os temores do abandono e da solidão, em síntese, não bastava o trono, era preciso um rei.
Mas não havia (ainda) um rei, e não apenas como ascenção de um príncipe suposto herdeiro, mas este jovem ainda no regaço da mãe não tinha (se) tornado um homem, refugiava-se na atemporalidade de uma adolescência tardia e permanente, resistia a se constituir um homem suficiente, embora o corpo já o denunciasse, e daí sem se tornar um homem não havia como ser ungido rei.
Caros leitores vale um lembrete, neste reino não se ungiam crianças como rei, havia um condição pétrea na lei, onde somente um homem suficiente poderia portar os signos de um rei, e como adendo à lei não se permitia neste reino patriarcal que as mulheres pudessem ter lugar na linhagem sucessória. Portanto, a questão era “quando o príncipe suposto herdeiro vai se tornar um rei?”
Ocorre que dentro das muralhas do castelo real havia um segredo, e como tal, era um segredo de estado e fechado a sete (mil) chaves, onde sómente a rainha, o principe suposto herdeiro e o Grão-Vizir, este como conselheiro real (o terceiro que rompe o absoluto), eram os guardiães do inominável. E o que seria, neste caso, algo inominável?

Naquela dinastia havia uma maldição que, periodicamente, assolava um dos varões da família, e por infortúnio do príncipe suposto herdeiro ele era um dos assinalados e sob este estigma o indizível instituiu sua primazia.
E como todo segredo este também provocou uma faina de suposições e afins na plebe da rua, nos prelados do santo ofício, nos dignitários, nas intrigas palacianas, na nobreza e na burguesia. Como uma onda que se infiltra nas entrelinhas, nas fendas e nos recônditos, os boatos, as fantasias mais delirantes e até as teorias mais estapafúrdias eram motivos de conversas ao pé-do-ouvido, em cochichos e aos brados, sobretudo dando-se ares de intimidade com o palácio real os que desfiavam as hipóteses mais críveis, ou seja, as mais aterrorizantes.
Ocorre que o terceiro ao quebrar o espelho que aprisiona uma relação especular introduz a palavra, rompe o indizível, faz emergir a angústia da cada um e torna possível sua elucidação temporária, e como a teoria sustenta foi o que ocorreu, o Grão-Vizir “deu nos dentes” e o segredo fragmentou-se para surpresa geral.
A maldição daquela linhagem real se manifestara e o príncipe suposto herdeiro apesar da fase púbere já vencida, de um corpo físico adulto já constituído e do garbo real, não apresentava cabelo no saco, isto mesmo, ele era “careca” na área genital, o que se não fosse apenas um despropósito também se tornava um impedimento ao reconhecimento público de que havia se tornado um homem com suficiência.
E aqui está, caro leitor, o impasse, um enigma digno de uma esfinge egípcia do tipo “decifra-me ou lhe devoro”, pois o príncipe suposto herdeiro já estava adentrado em idade aceita como de um adulto, há muito tempo já se deitara com sua primeira mulher, e muitas outras cortesãs já haviam lhe introduzido nas artes do erotismo e da sedução, nada daquilo que os homens acreditam ser suficiente para sua consistência viril lhe faltava, mas havia mesmo uma falta significada naquela alopécia tão fora de lugar, naquela falta de cabelo no saco havia inapelavelmente uma insuficiência.
Os sábios, os sacerdotes, os doutores, os professores e os magistrados foram convocados para tal empreitada, a saber, encontrar uma saída jurídica e institucional para se declarar pública e oficialmente o príncipe suposto herdeiro capaz para ser ungido rei, entretanto não conseguiram, aquela alopécia tão fora de lugar era visível, denunciadora e não seria uma nova jurisprudência, um implante capilar ou um decreto que faria existir cabelos onde nada se via, havia uma careca e ponto.
Claro que, como um contraponto, mais o príncipe suposto herdeiro se esforçava para aos olhos incrédulos dos outros afirmar sua potência peniana, sua aparente virilidade e a primazia patriarcal, o que resultava numa decepção coletiva, pois a alopécia estava ali como uma nudez que não se consegue esconder.
Caro leitor também vou lhe decepcionar pois esta estória não tem fim, a vacância deste trono não é um interrogante apenas para aquele reino, a alopécia deste príncipe suposto herdeiro nos aponta uma falta que nos acompanha por todo e sempre, como um aliado ou um adversário, a depender da significação que cada um fizer valer.
O que sei é que este príncipe suposto herdeiro armou-se para a guerra, vestiu-se com a armadura mais poderosa e foi ao encontro de seus inimigos imaginários para cegá-los todos, e assim num reino de cegos sua alopecia estaria invisível, o que revelou-se uma ilusão, pois a cada dia diante de um espelho infiel ele via o que ninguém mais conseguia ver mas que não deixavam de saber.

Foram muitas guerras em vão onde o que conquistava não eram novas fronteiras para seu reino, nem o trono e muito menos os cabelos que lhe faltavam, mas eram os olhos dos que enxergavam que aquele príncipe suposto herdeiro buscava como despojos de vitória. E no final de cada campanha aqueles olhos mortos lhe apontavam que a sua insuficiência permanecia.
Enlouquecido porque sua virilidade assassina, seu poder majestático e seu desejo real não lhe elucidavam o enigma, pois o absoluto lhe fugia, primeiro mandou quebrar todos os espelhos do reino e, em decorrência de mais este gesto insano e ilusório, num ato de impor seu desejo como uma lei arrancou os próprios olhos, e para que o toque não lhe denunciasse a alopécia, agora não mais vista, amputou as próprias mãos.
Agora cego e amputado deu-se por satisfeito, não mais fez guerra e nem ocupou o trono, não foi este seu destino, como não decifrou o enigma foi então engolido pela esfinge. O que se sabe é que o Grão-Vizir e os generais que não tiveram seus olhos arrancados arrastaram o príncipe suposto herdeiro, agora um condenado, para a masmorra do castelo e jogaram a chave fora, o que para o agora condenado não fazia a menor diferença pois em sua demência já não era um quase rei mas tornara-se algo muito maior e absoluto, muito acima das nuances da suficiência, pois já se tornara um deus.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Dezembro de 2010

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