sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Trilogia Geográfica de um Casamento


1º tempo: Pós Lua de Mel
Fase Nova York para a maioria, para uns e outros Tokyo, Berlim ou Florianópolis
É o tempo hig-tech do casamento, alta tecnologia, alta voltagem e alta performance.

2º tempo: Intermezzo
Fase Curitiba, Orlando, e para piorar, fase Caxambu e Araxá para outros
É o tempo família do casamento, para o bem e para o mal.

3º tempo: Aposentados e Entediados
Fase Barra Mansa, Niterói ou Montevidéu, ou mesmo um “campo santo”, mas sempre um lugar sem-graça e onde não acontece nada
É o tempo “final dos tempos” do casamento que também pode ser o “salve-se quem puder”.

Upgrade: um tempo a mais para muito poucos
Fase Barcelona (sem comentários)
É o tempo “Fênix” do casamento, mas é preciso atravessar um Atlântico primeiro.



1º tempo: Pós Lua de Mel
Fase Nova York para a maioria, para uns e outros Tokyo, Berlim ou Florianópolis

É o tempo hig-tech do casamento, alta tecnologia, alta voltagem e alta performance. Os casais estão em transe, embora hoje em dia muitos nesta fase já estão em trânsito em busca de um advogado para tratar da separação. Mas o que prevalece é uma relação conjugal como uma das metrópoles citadas acima, surpreendentes, faiscantes, sem censura, performáticas, sedutoras e hedonistas.
É uma fase de excessos de desejo, de lascívia, de surpresas, a racionalidade cede lugar à pulsão mais primária, geralmente tudo vira festa e acaba na cama, que torna-se um lugar privilegiado para muitas danações, onde dormir é o que menos importa.
É bem verdade que para alguns casais o sonho do altar se desfaz no pesadelo do quarto conjugal, aquela tessitura de uma vida romântica a dois desmancha-se ao se colocar a chave na porta do que seria um lar-doce-lar, mas isto não é nem de longe a nuance principal desta fase.
Nesta pós-modernidade em que vivemos certos estereótipos do casamento já não se sustentam mais e o mais emblemático deles é que os recém-casados de hoje já trazem um test-drive prévio, portanto o que antes era um tempo onde o casal a cada esquina precisava consultar o mapa daquela terra desconhecida (a vida a dois), hoje os casais já trazem GPS atualizado, muita quilometragem rodada, e como corolário uma certa impaciência de antemão.
Mas convenhamos que é uma fase de extremos, de excessos e de exceções, sobretudo com boas lembranças e muitas fotos para virar assunto em almoços familiares aos domingos, ou ao contrário, um esquecimento total no caso do casamento iniciar e terminar quase ao mesmo tempo, é uma fase de apelidos supostamente carinhosos que funcionam como sinfonia de gatos no cio apenas para o casal em questão é claro, pois para os demais não dizem muita coisa.
Assim a vida conjugal se inicia e toma rumo sempre sob uma grande interrogação.

2º tempo: Intermezzo
Fase Curitiba, Orlando, e para piorar, fase Caxambu e Araxá para outros

É o tempo família do casamento, para o bem e para o mal. A rotina que já rondava se instala, as surpresas e os embalos de uma metrópole cedem lugar para uma vida ordeira, pacata e, muitas vezes, decepcionante, e então como uma solução mágica o casal resolve constituir família e aí vem o primeiro filho e em seguida os demais, e quando não vem é tempestade à vista na certa.
Saem de cena equivalências de metrópoles como Nova York e Tokyo, entra o programa família “unida e feliz” que fica bem no retrato e os melhores cenários para estas fotos são Curitiba, Araxá e similares, e para os mais abonados detestáveis viagens em grupo para Disney em Orlando e compras em Miami.
É aqui que a maioria dos casais sela o destino de seu casamento, já que existem muitas sendas por onde o casal pode trilhar sua vida a dois, aqui vai ser engendrado um casamento pacífico e morto no tédio, ou pacífico mas com sobrevida e, às vezes, até animado, ou um casamento esterilizado na religião, ou suportado pelas conveniências imorais e,ou financeiras e demais motivos inexplicáveis, ou, finalmente o pesadelo se torna um armagedon e tudo termina em traições, agressões, baixarias diversas e quiçá disputas no tribunal.
Mas na moral brasileira o que prevalece é a ordem e o progresso, e sob este viés os arranjos e acertos vão sendo feitos como uma trama vistosa ou remendos com mal aspecto, e com um código social mais elástico e arejado o que antes era uma prisão perpétua deixa de sê-lo com mais facilidade, a carta de alforria está mais acessível o que possibilita que a vida a dois deixe de ser um inferno “até que Deus os separe” .
Nesta fase o casal faz filho, faz patrimônio e faz planos, de viagens, de comprar apartamento na praia ou um sitiozinho nas redondezas, mas também há quem faz planos para matar o marido sem deixar pistas ou planos de como manter um harém na clandestinidade. Mas, fantasias criativas à parte, a primazia é da família, a mesma ou com neo-arranjos, e todos se dão por satisfeitos se os filhos crescem e aparecem.
Quanto a assuntos e ocorrências de alcova a estória fica mais para o acasalamento do que para a sacanagem, certas performances ficam por conta de datas especiais em motéis discretos sem que a vizinhança saiba.
Batizados, aniversários, formaturas, enfim, isto faz o casamento sair do leito conjugal e freqüentar outras cenas, o que é garantia de sobrevivência de muitos casais, mas também é uma boa maneira de se escrever e se inscrever o epitáfio de um casamento, portanto, neste intermezzo todo cuidado é pouco, é bom que os casais não se esqueçam de se olhar no espelho com regularidade e conferir se a imagem ainda faz filme de boa bilheteria.



3º tempo: Aposentados e Entediados
Fase Barra Mansa, Niterói ou Montevidéu, ou mesmo um “campo santo”, mas sempre um lugar sem-graça e onde não acontece nada

É o tempo “final dos tempos” do casamento que também pode ser o “salve-se quem puder”. Aqui a tragédia enunciada se instala de vez pois chegam a menopausa, a andropausa, e outras pausas a duras penas, o casal deixa de se olhar no espelho e um passa a olhar o outro com apreensão.
Os filhos geralmente já se foram, moram fora, telefonam as vezes e vem cada vez menos visitar os pais, ou, como fenômeno típico e contemporâneo desta já gasta pós-modernidade, alguns filhos continuam pendentes no bolso dos pais, mas só circulam nas proximidades em função da conta bancária dos pais, portanto, o casal retorna ao tempo pós Lua de Mel, mas sem o frenesi e a pulsação daqueles tempos. Ah, bons tempos, os casais que atravessaram uma vida juntos costumam dizer, e agora como antes, estão novamente a sós.
Para muitos é o juízo final, se recolhem em orações, expiações e obras de caridade, entretanto outros se acomodam no tédio e na desesperança, mas ainda assim existem outros que não entregam os pontos, não dependuram as chuteiras e nem guardam as sapatilhas, resolvem que vão continuar juntos mas cada vez mais singulares.
Infelizmente tudo aponta para a primazia da falta de graça, falta de ânimo, falta de desejo e falta de tesão, o que mais se escuta são queixas de casais que fazem a falta deixar de ser um desejante e tornar-se um lamento, e nada mais próprio do que a equivalência geográfica com as cidades de Niterói (pois a vida está do outro lado da baía), de Barra Mansa (veja o nome se não é para desanimar) ou mesmo Montevidéu (um imenso asilo à beira do estuário do Prata) e, no pior dos cenários, como um “campo santo” (sem mesuras, um cemitério mesmo).
Nesta fase o marido aposentado permanece em casa numa falta do que fazer que exaspera a esposa, isto mesmo caro leitor, na altura dos acontecimentos não é mais a mulher, é apenas a esposa. E esta, cansada da lida doméstica ou também já aposentada, gostaria mesmo de encher a casa de amigas todo dia para uma biriba sem o marido por perto para atrapalhar ou, como um desejo oculto e impronunciável, “encher a cara” também.
Melancólico, pois não? Lamentável, pois sim!
Mas isto não é fatalidade, felizmente a vida permite um upgrade, para poucos é bem verdade, mas não existem os escolhidos e privilegiados neste pormenor, este upgrade é democrático, acessível para os casais em geral, mas exige um ônus e se o terceiro é o ultimo tempo de muitos casamentos a partir daqui também pode começar uma prorrogação, resta ver que escolha será feita, se o destino inevitável do casamento é o desenlace que a vida impõe a todos ou se, antes desta solução final, há ainda um tempo de vida, de movida, de luz, câmera e ação.





Upgrade: um tempo a mais para muito poucos
Fase Barcelona (sem comentários)

É o tempo “Fênix” do casamento (que renasce das cinzas), mas é preciso atravessar um Atlântico primeiro, e para muitos casais esta travessia já está fora de cogitação, a relação a dois já se consolidou como um compasso de espera e acomodados “ficam a ver navios”, entretanto para muitos outros, e nisto a tecnologia de estética, saúde e novas concepções da “maior idade” (um arranjo semântico melhor do que “meia idade”) tem sido de inestimável valia e eficácia, a vida abre-se em perspectivas inusitadas e assim um casamento pode recuperar seu viço e sua mobilidade.
Caro leitor, como já disse para uns casais sua relação já foi consumida em cinzas faz tempo, já está tudo apagado, sem vida, sem calor e sem fogo, sobraram apenas implicâncias, insônia e ruídos noturnos, o dia-a-dia é uma sucessão de ressentimentos e gestos impacientes, mas curiosamente para outros esta relação moribunda se transforma em amizade e um esforço resignado de convivência e solidariedade, o que me parece ser a forma mais melancólica de um casamento ainda existir.
Ah, mas Barcelona existe, bem na Catalunha, na Espanha, na Península Ibérica, bem ali do outro lado do Atlântico, formosa, sensualíssima, vibrante, pulsante, paradoxal e sempre surpreendente.
Como a lenda da Fênix que ressurgiu das cinzas, Barcelona também ressurgiu e várias vezes, ferida mas não abatida, orgulhosa e cada vez mais cheia de vida, e é nesta equivalência geográfica que um casamento pode ressurgir, como uma Barcelona indomável.
Claro que o casal precisa ser corajoso e inovador, capaz de “levantar, sacudir a poeira e dar volta por cima”, de estar junto com satisfação, desejo e prazer, mas também capaz de suportar rompantes de raiva, ódio e paixão, por que não? Barcelona é uma cidade cosmopolita, por lá não se sabe o que é provincianismo, mediocridade e meio termo, o medieval convive com o Eixample, o tradicional com o fashion, a paixão com a razão, Gaudi com Dali, e como eterno amante a cidade tem o Mediterrâneo a lhe tocar sempre o corpo.
Pois é com a referência geográfica de Barcelona que esta trilogia tem um upgrade, o casamento não está fadado apenas a três tempos, como uma preparação da terra, uma semeadura e uma colheita, e nada mais. O casal, como nômades, pode alcançar um outro lugar, digamos um outro estilo de relacionamento, mais livre, sem compromissos familiares e outros constrangimentos, onde não é preciso mais arar, semear e colher, mas dedicar-se a prazeres, dizeres e fazeres que a idade não rouba, pois a vida ainda pulsa, pois o estar com o outro ainda desperta o desejar, e o estar juntos é como sair a dançar atrás da banda a tocar.


José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Fevereiro de 2011


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