sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sobre Dívidas e Dúvidas, e Crises Existenciais


Pois bem, caro leitor, para início de conversa concordemos num ponto “não há crises existenciais”, mas há (e muitas) crises na existência, e não seria de outra maneira pois a existência se constitui de crises e intervalos, uns amenos e até prazeirosos e outros nem tanto, uns de tomar fôlego e outros de perdê-lo de vez, enfim assim é a existência humana, e seu caráter crítico pode trazer a primazia da quebra da monotonia ou o primado da melancolia.
Mas, mais além do que crises genéricas e, às vezes coletivas, há que se singularizar a existência, e nesta tentativa pode-se, a grosso modo, distinguir certos fantasmas que assombram de forma diferente os gêneros, ou melhor colocando, o que assombra as mulheres não é o mesmo que assombra os homens.
Numa sociedade ainda muito marcada pelo patriarcado, hoje muito sutilmente disfarçado em consumo, tecnologia e mídia, o que prevalece não é mais um suposto (que um dia foi muito explícito) poder masculino, mas um poder constituído pelo que é o falo da pós-modernidade, que está além das diferenças de gênero e da subjetividade. Entretanto os fantasmas que nos assombram, como seres viventes e pensantes, não se indiferenciaram tanto na pós-modernidade a ponto de suprimir certas diferenças entre um homem e uma mulher, e é sobre o que resta neste assombro diferenciado que este texto tenta apontar.
Dívidas e dúvidas não são significantes próprios de um gênero ou de outro, tanto homens como mulheres são atormentados, em graus variados, por ambos, mas a história humana tem mostrado uma diferença de prevalências que, se moldam muito as versões e atitudes de homens e de mulheres e ainda são fortes na constituição da subjetividade, não são marcos indeléveis, imutáveis e definitivos, e como a relatividade nos traz o conflito também nos agracia com a oportunidade. É neste ponto que o destino de cada um toma rumos singulares.
Há muito tempo que nas engrenagens ocultas do patriarcado engendra-se uma dinâmica onde a mulher vem sendo capturada pelo medo do homem, que assim impõe seu (suposto) poder, o que a história confirma em registros de horror, domínio, exploração e posse, e cabe aqui uma lembrança sinistra onde no período da Inquisição era a mulher a representação mais bem acabada de tramas diabólicas a serem destruídas ardendo na fogueira.
E é através de uma culpa atávica, uma dívida impagável e herdada por gerações, inoculada na subjetividade da mulher, que o poder masculino se impôs, e encontrando terra fértil no imaginário feminino conseguiu que uma culpabilidade sem crime se transformasse numa isca fácil para o domínio do homem. Mas que fertilidade é esta onde germina a vida e ao mesmo tempo engendra uma maldição? Mas é neste paradoxo onde pode-se encontrar o fio da meada de uma resposta, pois é gerando a vida que a dívida floresce, afinal não é separando-se do filho que a mãe permite que ele viva? Não é na renúncia de possuir o filho que a mãe permite que ele se aproprie da própria vida? E nesta perda primordial há a inscrição de uma suposta (e enganosa) dívida que o imaginário feminino ainda não conseguiu elucidar suficientemente, sobretudo porque é um estratagema perverso do patriarcado.



Mas como não se pode cunhar uma moeda de uma única face, e todo jogo de poder implica num eterno embate entre força e fraqueza, o homem não escapa de pagar seu tributo, e este insinua-se como uma dúvida a atormentar o homem em sua permanente necessidade de afirmação viril.
A cultura patriarcal exige uma constante, vistosa e explícita manifestação de poder, de preferência com pompa, circunstância e domínio, e o homem, pobre homem, fica ao sabor dos humores do momento e assim fica, sem saber, como estar garantindo-se, ou com uma colocação melhor, como estar equilibrando-se, sobre o fino fio que sustenta sua supremacia viril, sua identidade de macho dominante, daí uma permanente dúvida a lhe tirar o chão que pisa. A necessidade mandatária de afirmação traz, como uma dialética perversa, uma dúvida como contrapartida, e assim fica o homem a se esgueirar entre a fantasia de onipotência e o horror da impotência, como ônus do estratagema perverso do patriarcado.
Neste ponto, caro leitor, é natural que esteja com a cabeça em ebulição e prefira questões mais amenas, mas o fantasma que assombra a todos nós é impaciente, persistente e devorador, os sintomas da atualidade nos confirmam isto, sobretudo porque as inúmeras estratégias que existem hoje para iludir o fantasma são muito sedutoras e acessíveis, a busca de um gozo incessante, os psicofármacos, o consumismo, as adições, as relações superficiais, os descompromissos se tornaram substitutivos de uma realidade incômoda e postergada, mas são estratégias efêmeras e ilusórias, e como o reprimido sempre retorna o fantasma não elucidado não desiste, e mais cedo ou mais tarde, quando menos se espera, ele está ali a nos esperar.
Então o que nos cabe neste “mato sem cachorro”? Insistir na alienação, medir forças com o fantasma pela vida à fora? Mas, insisto, será uma luta inglória. Tudo o que a dívida e a dúvida veiculam para cada um de nós, tudo que significam como herança de uma cultura e singularidades de cada um precisam ser atualizados, mobilizados pela sublimação e ressignificados pela palavra para que daí possa haver mobilidade, sem o que estes significantes permanecerão como a masmorra onde a subjetividade vai fenecer a cada dia.



José Luiz de Carvalho
Psicólogo/Psicanalista

Maio de 2010

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