quarta-feira, 26 de maio de 2010

O STATUS DO PROFESSOR EM COLAPSO

Carta ao Professor
Por Marcelo Coelho
O Status do professor em colapso
Sempre tive horror de professores autoritários, e não sei por que razão, na minha época, os de Geografia eram os mais famosos neste quesito. Talvez tivessem algo de militar no raciocínio. Os de Educação Física e Matemática não ficavam muito atrás, e no colégio que frequentei a ideia de que estávamos numa instituição “de elite” era pretexto para incríveis atos de arbitrariedade.
Estávamos em 1972, e por alguma circunstância milagrosa ocorria uma eleição bastante disputada para o inútil grêmio de ginásio. Um colega, dos mais propensos a atrair minha antipatia (certa vez derramou uma garrafa de guaraná na minha cabeça), foi assistir à aula de Geografia usando uma faixa na testa, onde estava escrito o nome da chapa que apóia na eleição.
O professor de Geografia não precisou levantar-se da cadeira. Sua voz teria feito tremer um oficial do BOPE. “Arranca isso da testa”.Ele obedeceu como se aquela ordem fosse a coisa mais evidente do mundo. Talvez seja, mas tenho dúvida até hoje. A classe gelou em silêncio. Até hoje me arrependo de não ter perguntado, como cidadão, o que havia de errado em usar aquela faixa. Mas eu não tive coragem. Se fosse corajoso, aliás, não teria nunca recebido um despejo de guaraná na cabeça.
Sucediam-se, a cenas como essa, os mesmos discursos em torno da excelência de nosso colégio, que estava formando “a elite” do País. Uma elite questionadora e crítica, sem dúvida nenhuma, desde que deixasse seus questionamentos e críticas fora da sala de aula de Geografia.
Digo tudo isso para frisar que tenho repugnância e desdém pelos professores que são tirados em sala de aula. Poucas profissões, aliás, garantem a quem as exerce uma situação de poder desde o primeiro dia de trabalho. Todo professor pode contabilizar, entretanto, esse invejável adicional simbólico aos modestos salários que recebe.
Pode? Será que ainda pode? Recentemente fiquei sabendo de um projeto de lei em curso na Assembléia Legislativa de São Paulo, que proíbe oficialmente o uso de celulares em sala de aula. Não sei de exemplo mais claro do colapso da autoridade inerente ao cargo de professor.
Se um professor não consegue impedir sozinho o uso de celulares, i-pods ou coisa que o valha (armas de fogo, seringas injetáveis?) durante a sua aula, sendo necessário, para isso, a legitimidade da lei e a força de um aparato policial para garanti-la, isso é sinal de que seu status tornou-se equivalente ao de um porteiro franzino numa boate frequentada por Al Capone.
Não faltam exemplos - quem trabalha na rede pública ou na particular sabe melhor que eu – de professores espancados e ameaçados de morte pelos alunos, quando não intimidados pelos pais de alunos ou pelos traficantes que dominam o local.
Nunca pensei que o meu velho professor de Geografia fizesse falta em escola nenhuma. Mas se autoritarismo e educação não combinam, não vejo como haver educação sem um mínimo de respeito à autoridade. Tenho até hoje pesadelos com aquele tirano do ginásio. Mas espero estar sendo verdadeiro ao dizer que não gostaria de vê-lo sob a mira de um revólver. Seria até capaz, nesse caso, de usar o celular para chamar a polícia. Mas não sei se isso adiantaria alguma coisa.